Uma Mulher Inteira
Sobre o desejo de amar alguém sem fazer do amor a medida de quem somos.
“Women, they have minds, and they have souls, as well as just hearts. And they’ve got ambition, and they’ve got talent, as well as just beauty. I’m so sick of people saying that love is just all a woman is fit for.” — Jo March, Little Women (2019)
A primeira vez que assisti a Adoráveis Mulheres foi com a minha mãe. Eu ainda não sabia que aquela história ficaria comigo por tanto tempo, muito menos que uma conversa entre Jo March e Marmee só faria sentido para mim anos depois. Naquela época, a cena era bonita; hoje, aos vinte e dois anos, ela parece ter encontrado alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.
Jo está falando sobre amor, mas não exatamente sobre deixar de amar. Ela está tentando explicar à mãe que existe uma diferença entre desejar ser amada e aceitar que o amor seja a única coisa que uma mulher pode desejar para a própria vida. Ela quer Laurie, quer ser amada, sente a solidão de não ter alguém, mas também quer escrever, trabalhar, construir uma existência que tenha o próprio nome. E talvez seja justamente essa contradição que torne a cena tão humana: Jo não é uma mulher que não acredita no amor; ela é uma mulher que não aceita que o amor seja suficiente para explicá-la.
Só agora começo a entender por que aquela conversa me tocou tanto.
Conforme fui crescendo, comecei a perceber uma coisa que parece tão natural que quase nunca questionamos: quando conhecemos uma mulher, muitas vezes uma das primeiras coisas que queremos saber é se ela tem namorado. Depois vêm o casamento, os filhos, o tipo de homem que ela procura, há quanto tempo está solteira, se está “conhecendo alguém”. Como se existisse uma espécie de roteiro silencioso em que a vida feminina precisasse, em algum momento, encontrar um homem para finalmente fazer sentido.
Eu quero um relacionamento. Quero me apaixonar, encontrar alguém que seja meu parceiro de vida, casar e ser mãe. Não tenho nenhum problema em admitir isso; na verdade, acho o amor uma das experiências mais bonitas que podemos viver. Mas querer tudo isso não significa que eu queira que essas coisas sejam a única história contada sobre mim.
Eu quero ter um relacionamento com alguém, mas, antes de ter um, quero ser eu como nunca fui e me ter como nunca me tive.
Escrevi essa frase em um vídeo no TikTok sem imaginar o quanto outras mulheres se reconheceriam nela. Uma seguidora escreveu que aquelas eram exatamente as palavras que ela não conseguia dizer em voz alta e que, depois de tantas relações vazias, estava aprendendo a gostar da própria companhia. Outra disse que sente gostar mais de si mesma quando não gosta de ninguém.
Esses comentários ficaram comigo porque talvez exista uma experiência feminina muito difícil de explicar: às vezes, quando ninguém ocupa nosso coração, conseguimos ouvir melhor a nossa própria voz.
Mas não acho que a resposta seja deixar de amar.
Acredito justamente no contrário.
Uma das coisas que mais me interessa nessa discussão é que eu não acredito que uma mulher consiga se conhecer completamente apenas estando sozinha. Relacionamentos também são lugares de descoberta. Quando nos envolvemos com alguém, encontramos lados nossos que talvez nunca tivessem aparecido em outro contexto; descobrimos como reagimos ao conflito, como damos afeto, o que esperamos, aquilo que suportamos, o que precisamos aprender a comunicar e até partes da nossa personalidade que estavam adormecidas.
Foi exatamente isso que respondi àquela seguidora: se conhecer é um dos processos mais bonitos da vida, mas, muitas vezes, precisamos do olhar de outra pessoa para enxergar algo que sozinhos não conseguiríamos perceber.
Talvez seja por isso que eu não queira transformar esse artigo em uma defesa da solidão.
Eu sou a favor do amor.
Sou a favor de se apaixonar, de construir intimidade, de dividir uma casa, de conhecer profundamente alguém e permitir que essa pessoa também conheça aquilo que existe dentro de nós. Só acredito que precisamos selecionar com muito cuidado quem recebe acesso a essas partes.
Porque estar com alguém também é uma forma de nos conhecermos, mas isso não significa que qualquer relacionamento seja capaz de nos fazer bem.
Existe uma diferença enorme entre se encontrar dentro de uma relação e se perder dentro dela.
Penso nisso quando observo algumas das mulheres que amo.
Tenho amigas que, antes de determinados relacionamentos, pareciam ocupar o mundo inteiro. Tinham projetos, amizades, interesses, planos, pequenas obsessões, lugares preferidos, histórias que pertenciam somente a elas. Então alguém aparece, e, pouco a pouco, tudo começa a girar em torno daquele vínculo.
Não é necessariamente uma mudança brusca. É muito mais silencioso.
Uma amizade que deixa de ser prioridade. Um projeto que fica para depois. Um hobby que desaparece. Uma ambição que passa a esperar o momento “certo”. Um fim de semana que precisa ser negociado. Uma mulher que começa a falar cada vez mais sobre a relação e cada vez menos sobre si.
Não acho que isso aconteça porque o amor seja ruim.
Acho que, às vezes, aprendemos a amar ocupando espaço demais na vida do outro e deixando pouco espaço para nós mesmas.
É aqui que a ideia de diferenciação do self, presente na teoria de Murray Bowen, me parece especialmente interessante. Dentro da teoria dos sistemas familiares, diferenciação diz respeito à capacidade de permanecer emocionalmente conectado às pessoas sem perder a própria identidade e a capacidade de pensar e agir de acordo com aquilo que realmente acreditamos. Quanto menor essa diferenciação, maior pode ser a influência da aprovação e da pressão emocional dos outros sobre nossas escolhas.
Talvez seja isso que eu esteja tentando reconhecer quando digo que algumas mulheres perdem o brilho.
Não porque estão amando.
Mas porque, em algum momento, deixaram de reservar uma parte da vida para continuar sendo elas mesmas.
Virginia Woolf escreveu, em A Room of One’s Own, sobre a necessidade de uma mulher possuir espaço e independência material para desenvolver sua própria vida intelectual e criativa. A ideia nasceu da discussão sobre mulheres e literatura, mas sempre me pareceu maior do que isso: existe uma importância enorme em ter alguma coisa que seja nossa, que não dependa de um homem, de um casamento ou da aprovação de ninguém.
Talvez hoje esse “quarto próprio” possa significar muitas coisas.
Pode ser uma carreira, uma amizade, um livro, uma viagem, uma ambição, uma conta bancária, um projeto, uma tarde sozinha ou uma paixão que não precisa ser compartilhada para ter valor.
Uma vida que continue existindo mesmo quando o relacionamento não ocupa o centro dela.
Eu quero ser esposa, mas também quero continuar sendo escritora.
Quero ser mãe, mas também quero descobrir quem sou antes da maternidade.
Quero construir uma casa com alguém, mas quero continuar tendo um lugar dentro de mim que seja exclusivamente meu.
Não acho que essas coisas concorram.
Acho que elas podem coexistir.
Talvez por isso eu tenha gostado tanto de voltar à cena de Jo agora, aos vinte e dois anos.
Porque existe uma parte dela que eu só compreendo hoje: ela não está tentando escolher entre amor e liberdade; ela está tentando entender como pode ter os dois sem desaparecer.
A própria cena deixa isso claro. Jo admite que quer ser amada, admite sua solidão e, ainda assim, se revolta com a ideia de que o amor seja o destino inteiro de uma mulher. A personagem não é construída como alguém que simplesmente rejeita relacionamentos; ela é construída como alguém que deseja uma vida que não termine neles.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais a personagem continue encontrando tantas mulheres.
Porque ainda existe uma diferença entre perguntar a uma mulher quem ela ama e perguntar quem ela é.
Eu acho muito bonito conhecer uma garota e não descobrir imediatamente se ela tem namorado. Não porque eu não queira saber, mas porque gosto da possibilidade de conhecê-la antes dessa informação. Quero saber o que ela pensa, o que estuda, o que pretende fazer, quais são seus sonhos, quais são as coisas que fazem seus olhos brilharem.
Quero descobrir a mulher antes de descobrir o homem.
Talvez seja por isso também que a música tenha tanta facilidade para falar sobre essas contradições.
O terceiro álbum de Olivia Rodrigo, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, lançado em junho de 2026, parece quase construído em torno dessa pergunta: como alguém pode estar profundamente apaixonado e, ainda assim, não estar bem? O próprio título já contém a contradição, enquanto o disco percorre diferentes momentos de uma relação, da euforia inicial à dúvida, ao ressentimento e à percepção de que aquele vínculo talvez esteja ocupando mais espaço do que deveria. (Fonte: CNN Brasil)
Em “Purple”, existe uma imagem especialmente interessante para o que estou tentando dizer aqui. A música começa com a ideia de duas pessoas se misturando, como se a relação criasse uma nova cor a partir das duas. É uma metáfora bonita para o amor, mas, conforme a canção avança, essa fusão deixa de parecer apenas romântica: os sonhos individuais começam a desaparecer dentro da relação e a narradora percebe o quanto ficou consumida por aquilo. (Fonte: Variety)
É justamente essa ambiguidade que me interessa.
Não porque eu queira dizer que amar alguém significa perder a si mesma.
Mas porque existe uma diferença entre compartilhar uma vida e entregar a própria vida.
A cultura pop volta tantas vezes a essa angústia porque ela é reconhecível. Amar pode ser maravilhoso e, ao mesmo tempo, desorganizador. Pode revelar partes nossas que estavam escondidas, mas também pode nos fazer perceber que colocamos alguém em um lugar que deveria continuar sendo nosso.
Talvez seja por isso que tantas mulheres se reconheçam nessas histórias.
Não porque todas tenham vivido o mesmo relacionamento, mas porque muitas já sentiram a estranha experiência de olhar para si mesmas e perceber que estavam ficando distantes de quem costumavam ser.
Eu não acredito que isso torne uma experiência amorosa inútil.
Pelo contrário.
As relações que vivi, inclusive aquelas que não chegaram aonde eu imaginava, fazem parte de quem estou me tornando. Eu não gostaria de apagar nenhuma delas. Cada experiência me ensinou alguma coisa sobre o que desejo, sobre o que não aceito, sobre como amo, sobre aquilo que preciso aprender e sobre a mulher que quero ser.
Gosto de pensar que até as relações que terminaram estão me levando para algum lugar.
Talvez estejam me levando para a mulher que ainda vou ser.
Talvez estejam me preparando para o amor que um dia vou construir.
Talvez, de alguma maneira, cada pessoa que passou pela minha vida tenha deixado uma pergunta que eu precisava responder antes de encontrar as respostas seguintes.
E existe algo bonito nisso: não precisamos transformar uma relação que terminou em um erro apenas porque ela não durou para sempre.
Algumas pessoas fazem parte do caminho.
Outras permanecem.
E talvez o amor também seja uma forma de aprendizado sobre nós mesmas.
Existe, inclusive, algo curioso acontecendo na cultura contemporânea. Em 2025, a Vogue publicou “Is Having a Boyfriend Embarrassing Now?”, discutindo a maneira como algumas mulheres passaram a questionar a exposição dos próprios relacionamentos e a ideia de que ter um namorado deveria funcionar como uma espécie de símbolo de status.
Eu não acho que isso signifique que as mulheres deixaram de querer amar.
Talvez signifique que estamos começando a entender que ter alguém não deveria ser uma conquista maior do que ter a nós mesmas.
E essa distinção importa.
Porque eu não quero uma sociedade em que mulheres tenham vergonha de dizer que querem casar, ter filhos ou viver uma grande história de amor. Também não quero que mulheres que não desejam nada disso precisem justificar suas escolhas.
Quero apenas que nenhuma dessas possibilidades seja tratada como requisito para uma vida completa.
bell hooks escreveu em All About Love sobre o amor como uma prática que envolve cuidado, respeito, responsabilidade, confiança e conhecimento, em vez de tratá-lo apenas como sentimento ou desejo.
Essa visão me interessa porque aproxima o amor de algo que deveria ampliar a vida, não estreitá-la.
E talvez seja aqui que eu consiga responder àquela menina que disse gostar mais de si mesma quando não gosta de ninguém.
Eu entendo.
Quando estamos sozinhas, existe uma liberdade muito particular em não precisar dividir a atenção, negociar desejos ou reorganizar a vida em torno de outra pessoa. Mas eu não acredito que o amor genuíno deva nos afastar de nós mesmas.
Acho que, quando ele é bom, forte e verdadeiro, acontece quase o contrário.
Ele nos aproxima ainda mais de quem somos.
Um relacionamento pode revelar partes nossas que estavam escondidas. Pode nos ensinar sobre limites, generosidade, desejo, vulnerabilidade, medo e coragem. Pode nos mostrar coisas que nunca teríamos descoberto sozinhas.
O outro também pode ser um espelho.
Só precisamos escolher com cuidado diante de quem vamos nos olhar.
No fim, talvez seja isso que eu tenha entendido agora sobre Jo March e também sobre mim.
Eu não quero uma vida sem amor.
Quero uma vida tão cheia de mim que o amor possa chegar para somar, não para preencher um espaço que eu nunca aprendi a ocupar.
Quero encontrar alguém e continuar tendo minhas amigas.
Quero construir uma família e continuar tendo meus sonhos.
Quero dividir uma casa e continuar tendo meus lugares internos.
Quero ser profundamente amada sem precisar ser reduzida à mulher que alguém ama.
Quero que o homem com quem eu me casar conheça a mulher que eu construí antes dele, e não uma versão dela que precisou desaparecer para caber em um relacionamento.
Porque eu quero ser escolhida, mas também quero escolher.
Quero conhecer alguém, mas também quero continuar me conhecendo.
Quero amar, mas não quero desaparecer dentro do amor.
Talvez crescer como mulher seja justamente aprender que não precisamos escolher entre ter alguém e ter a nós mesmas.
Podemos querer o casamento e ainda querer uma carreira.
Podemos sonhar com filhos e ainda ter ambições que não cabem dentro da maternidade.
Podemos desejar um parceiro para a vida e, ao mesmo tempo, construir uma vida que não dependa da chegada dele.
E talvez a coisa mais bonita que possamos oferecer a alguém seja justamente essa: não chegar vazias, esperando que o outro nos dê uma identidade, mas chegar inteiras, com uma vida que já existe e que, por amor, escolhemos compartilhar.
Jo queria ser amada.
Eu também quero.
Mas hoje eu entendo que essa não é a parte mais importante da história.
Antes de ser esposa, mãe ou parceira de alguém, existe uma mulher que precisa descobrir o que significa ser ela mesma.
E eu quero conhecê-la.
Quero ser eu como nunca fui e me ter como nunca me tive.
Para continuar refletindo
Livros:
- Little Women (Louisa May Alcott).
- A Room of One’s Own (Virginia Woolf).
- All About Love: New Visions (bell hooks).
Filmes:
- Little Women (2019).
Músicas:
- Purple (Olivia Rodrigo).
Para pensar
E se o amor da nossa vida não precisasse ser a pessoa que nos completa, mas a pessoa que encontra uma mulher que já aprendeu a ser inteira?
Fontes →
referências consultadas para este texto
- 01 Little Women — Louisa May AlcottLivro (1868)
- 02 Little Women — Greta GerwigFilme (2019)
- 03 A Room of One’s Own — Virginia WoolfLivro (1929)
- 04 All About Love: New Visions — Bell HooksLivro (2000)
- 05 Teoria da diferenciação do self — Murray BowenTeoria dos sistemas familiares
- 06
- 07 Purple — Olivia RodrigoDo álbum You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, usada aqui como referência para a ideia de fusão afetiva e apagamento dos sonhos individuais.Música (2026)ver online ↗
- 08 Is Having a Boyfriend Embarrassing Now? — Chanté JosephBritish Vogue (2025)