Toda mãe ama muitas pessoas dentro do mesmo filho

Amar um filho talvez seja aprender, todos os dias, a se despedir de uma versão dele sem deixar de amar aquela que está por vir.

Nota da autora: Este não é um texto sobre religião, nem pretende convencer ninguém a compartilhar da minha fé. As referências a Deus aparecem porque fazem parte da maneira como fui criada e da forma como aprendi a compreender o amor, a família e a maternidade. Também acredito que seja importante dizer que este ensaio não foi escrito apenas a partir da minha perspectiva. Como ainda não sou mãe, muitas das reflexões presentes aqui nasceram das conversas que tive com a minha mãe, mãe de três filhos, e com a minha avó, mãe de sete. Este texto foi construído a partir das histórias, das lembranças e da forma como elas enxergam a maternidade. Ainda assim, espero que a reflexão possa encontrar espaço em qualquer leitor, independentemente de sua experiência ou de suas crenças.


Existe um tipo de luto sobre o qual quase ninguém fala.

Ele não acontece quando perdemos alguém, nem chega acompanhado das despedidas que costumamos reconhecer como dolorosas. É um luto silencioso, discreto, que nasce enquanto a vida segue exatamente o caminho que deveria seguir. No entanto, imagino que poucas experiências convivam tanto com ele quanto a maternidade.

Quem acompanha os textos que escrevo provavelmente já percebeu que muitas das minhas reflexões começam dentro da minha própria casa. Não é por acaso. Sou muito próxima da minha mãe e, olhando para a minha vida, percebo que boa parte dos ensinamentos que carrego veio dela. Sempre a considerei uma das pessoas mais sábias que conheço. Não porque tenha resposta para tudo, mas porque enxerga a vida com uma sensibilidade que poucas pessoas possuem e, principalmente, porque me ensinou a fazer perguntas antes de procurar respostas.

Há algum tempo, perguntei a ela como era ser mãe.

A resposta foi simples.

Ser mãe é se apaixonar e ter o coração partido todos os dias.

Naquele instante, achei a frase bonita. Atualmente, acredito que ela descreve a maternidade de uma maneira que dificilmente conseguiria encontrar em um livro.

Não sou mãe. Não sei como é descobrir que existe uma vida crescendo dentro de mim, esperar nove meses por um rosto que ainda não conheço ou acompanhar alguém desde o primeiro dia de existência. Tudo o que sei sobre esse amor aprendi observando a minha mãe e, para escrever este artigo, também recorri às conversas com a minha avó. Foi ouvindo as duas que comecei a perceber que, por vezes, uma mãe passa a vida inteira convivendo com despedidas que quase ninguém enxerga.


Quando eu era pequena, nunca entendi por que a minha mãe guardava tantas coisas.

Os meus dentes de leite permaneciam cuidadosamente separados em uma caixinha. Algumas roupas que já não serviam continuavam dobradas no armário. Brinquedos que haviam deixado de fazer parte da minha rotina demoravam anos para desaparecer. Durante muito tempo, achei curioso aquele apego por objetos que já não tinham utilidade.

Hoje penso que ela nunca esteve guardando roupas.

Nem brinquedos.

Nem dentes de leite.

Ela estava tentando preservar capítulos inteiros da minha infância.

É possível que seja por isso que tantas mães tenham dificuldade para se desfazer dessas pequenas lembranças. Para quem olha de fora, um vestido é apenas um vestido. Para quem acompanhou cada fase do crescimento de um filho, ele também representa uma época que jamais voltará exatamente da mesma maneira.

A infância termina de forma quase imperceptível.

Ela não vai embora de um dia para o outro. Um desenho deixa de fazer sentido, um brinquedo perde espaço para outros interesses, um personagem favorito é substituído por outro e, sem perceber, a criança já não é mais a mesma. Quem cresce costuma viver essas mudanças com naturalidade. Afinal, descobrir novidades faz parte da infância. Contudo, imagino que para uma mãe cada uma dessas transformações carregue um significado diferente.

Não porque ela deixe de amar quem o filho está se tornando.

Mas porque cada nova fase também exige uma despedida silenciosa daquilo que ele já foi.


Foi pensando nisso que comecei a compreender melhor a frase da minha mãe.

Naturalmente, o coração dela não se parte porque algo deu errado.

Pelo contrário, ele se parte justamente porque tudo está acontecendo como deveria.

O bebê aprende a andar.

A criança descobre autonomia.

O adolescente já não pede a mesma ajuda de antes.

O adulto constrói a própria vida.

Cada uma dessas conquistas representa uma alegria imensa, mas também encerra um capítulo que nunca mais poderá ser vivido da mesma forma.

Quanto mais refletia sobre isso, mais percebia que o crescimento de um filho nunca acontece apenas para ele. Enquanto uma criança descobre quem deseja ser, sua mãe também precisa aprender a amar alguém que muda o tempo inteiro. Ela se despede do bebê sem deixar de amar a criança. Depois, da criança sem deixar de amar o adolescente. Mais tarde, aprende a amar o adulto, embora, por vezes, sinta saudade das versões anteriores.

Pode ser esse um dos aspectos mais bonitos da maternidade.

Ela ensina que amar alguém nunca significou desejar que essa pessoa permanecesse igual para sempre.

Amar é permitir que o outro mude sem transformar essa mudança em uma perda do amor.


Essa reflexão não se limita às fases da infância.

Muito antes de um filho nascer, é natural que os pais imaginem quem ele será. Pensam na profissão que talvez escolha, nos esportes de que poderá gostar, nos valores que levará consigo, nos sonhos que construirá e até nas características da personalidade que esperam reconhecer. Essas expectativas raramente nascem do desejo de controlar a vida de alguém. Na maioria das vezes, surgem porque amar também é imaginar futuros.

O problema é que nenhum filho chega ao mundo para confirmar aquilo que foi imaginado sobre ele.

Alguns seguem caminhos completamente diferentes. Mudam de cidade, escolhem profissões inesperadas, apaixonam-se por pessoas que os pais jamais imaginaram, abandonam planos antigos, erram, recomeçam e, frequentemente, descobrem felicidade em lugares que ninguém havia previsto.

Imagino que exista um luto também aí.

Não porque o filho tenha decepcionado seus pais, mas porque a pessoa real substitui, aos poucos, aquela que existia apenas na imaginação.

Aceitar essa troca talvez seja uma das formas mais profundas de amar.

Significa compreender que um filho nunca veio ao mundo para realizar os sonhos de outra pessoa. Ele veio para descobrir os próprios.


Essa ideia aparece de maneiras diferentes na psicologia do desenvolvimento. Donald Winnicott escreveu, em Playing and Reality, que uma mãe não precisa ser perfeita para criar um filho emocionalmente saudável; basta ser “suficientemente boa”. Entre tantas interpretações possíveis, existe uma que sempre me emociona: crescer pressupõe pequenas frustrações, porque é justamente por meio delas que uma criança desenvolve autonomia e aprende que será capaz de caminhar com as próprias pernas.

John Bowlby, ao desenvolver a teoria do apego, mostrou que os primeiros vínculos moldam profundamente nossa maneira de construir relações ao longo da vida. A segurança emocional nasce quando uma criança sabe que existe alguém para quem ela pode voltar. Talvez seja por isso que as primeiras demonstrações de amor sejam tão determinantes. Elas não ensinam apenas o que é afeto; ensinam também como enxergaremos o mundo e as pessoas.

Quando penso na minha história, percebo que muito do que hoje ofereço às pessoas nasceu dentro da minha casa. Aprendi o valor do diálogo porque fui ouvida. Aprendi a confiar porque alguém confiou em mim antes que eu cresse em mim mesma. Aprendi que amor também pode ser incentivo, presença e respeito porque foi exatamente isso que recebi.

Pode ser esse um dos maiores presentes que uma mãe pode oferecer a um filho.

Não apenas cuidar dele enquanto é pequeno, mas ajudá-lo a construir a segurança necessária para continuar caminhando quando ela já não puder protegê-lo de tudo.

E é provável que seja justamente aí que comece outra forma de despedida.

Porque toda mãe sabe que chega um momento em que amar também significa soltar a mão.


Enquanto escrevia este artigo, voltei a uma lembrança da adolescência.

Durante muitos anos, minha mãe repetiu uma frase que eu nunca compreendia completamente.

O amor de uma mãe é a coisa mais próxima do amor de Deus.

Naquela época, eu entendia essa comparação apenas pela intensidade. Pensava que ela queria dizer que nenhuma pessoa seria capaz de amar tanto quanto uma mãe.

Atualmente, enxergo essa ideia de outra maneira.

Porventura esses amores não se aproximem porque sintam exatamente a mesma coisa, mas porque ambos escolhem permanecer. São amores que continuam presentes mesmo quando não recebem nada em troca, que acolhem, corrigem, esperam, perdoam e, sobretudo, desejam profundamente o bem de quem amam.

Existe, porém, uma diferença que sempre me faz refletir.

Acho que toda mãe, se pudesse, evitaria o sofrimento dos filhos. Se houvesse uma maneira de carregar a dor no lugar deles, muitas fariam isso sem pensar duas vezes. Não porque acreditassem que a vida pudesse existir sem dificuldades, mas porque ver um filho sofrer porventura seja uma das experiências mais difíceis que alguém pode atravessar.

Com Deus, a minha percepção sempre foi diferente.

Sei que esta é uma visão construída a partir da fé com a qual fui criada, e não uma verdade absoluta. Ainda assim, sempre pensei que o amor de Deus não elimina todas as dores porque enxerga aquilo que nós ainda não conseguimos ver.

aprendizados que só existem porque determinadas perdas aconteceram.

encontros que só foram possíveis depois de despedidas.

versões de nós mesmos que jamais existiriam se a vida tivesse sido apenas confortável.

Minha mãe queria me proteger do sofrimento.

Deus, na maneira como aprendi a conhecê-Lo, parecia querer preparar-me para enfrentá-lo.

Durante muito tempo achei que esses amores fossem diferentes.

Hoje penso que eles caminham na mesma direção, apenas por vias distintas.

Um protege porque ama.

O outro também ama, mas sabe que crescer exige atravessar experiências que ninguém pode viver por nós.


Pode ser exatamente por isso que a maternidade exija tanta coragem.

Criar um filho não é apenas alimentá-lo, educá-lo ou ensiná-lo a distinguir o certo do errado. É aceitar que chegará um dia em que ele fará escolhas sozinho, cometerá erros que você não conseguirá impedir, sofrerá perdas que você não poderá evitar e construirá uma vida que decerto seja completamente diferente daquela que um dia você imaginou.

Ainda assim, você continuará amando.

O amor amadurece quando deixa de depender das expectativas.

Quando compreende que um filho não veio ao mundo para confirmar sonhos antigos, mas para descobrir os próprios.

Carl Rogers escreveu, em On Becoming a Person, que uma das maiores demonstrações de afeto é oferecer aceitação genuína ao outro. Não significa concordar com todas as escolhas, mas reconhecer a dignidade daquela pessoa para além dos nossos desejos sobre ela. Gosto de pensar que a maternidade também passa por esse aprendizado. Existe um momento em que amar deixa de significar conduzir e passa a significar acompanhar.

É uma mudança silenciosa.

Mas profundamente bonita.

Quanto mais observo a minha mãe, mais percebo que ela nunca tentou construir uma versão ideal de quem eu deveria ser. Ela sempre acreditou que havia um caminho para mim, mas permitiu que eu o descobrisse aos poucos. Quando penso nisso, compreendo que uma das maiores provas de amor decerto seja justamente essa: confiar que alguém encontrará o próprio lugar no mundo, mesmo quando esse lugar não é aquele que imaginávamos.


Por vezes me perguntam por que desejo tanto ser mãe.

A resposta nunca esteve na ideia de uma família perfeita.

Tampouco está nas fotografias bonitas, nas datas comemorativas ou nas cenas idealizadas que costumamos ver nas redes sociais.

O que desperta esse desejo é ter crescido observando um amor que nunca deixou de escolher.

Um amor que comemorou minhas conquistas sem transformá-las em condição para continuar existindo.

Um amor que me corrigiu quando foi necessário, me acolheu quando falhei e permaneceu presente mesmo nas fases em que eu ainda não sabia quem estava me tornando.

É possível que seja impossível viver uma maternidade sem experimentar esses pequenos lutos.

O bebê vai embora.

A criança também.

O adolescente dá lugar ao adulto.

As expectativas mudam.

Os planos se transformam.

Em algum momento, os filhos constroem a própria casa, criam novas rotinas e deixam de precisar dos pais da mesma maneira.

Nada disso significa que o amor diminuiu.

Significa apenas que ele precisou aprender novas formas de existir.


Depois de escrever este artigo e, sobretudo, depois de ouvir tantas histórias da minha mãe e da minha avó, fiquei com a impressão de que a maternidade decerto seja uma das poucas experiências em que alguém aceita, desde o primeiro dia, amar sabendo que também precisará aprender a deixar ir.

E, curiosamente, isso não torna esse amor menor.

Torna-o ainda mais bonito.

Talvez a maior prova disso seja que milhões de mulheres continuam escolhendo esse caminho, mesmo sabendo que ele será feito de alegrias, preocupações, renúncias, despedidas e recomeços. Não porque ignorem as dificuldades, mas porque descobrem que existe uma beleza extraordinária em acompanhar alguém florescer, ainda que isso signifique vê-lo caminhar cada vez mais longe.

Não sei se um dia terei o privilégio de ser mãe, sonho que sim.

Também não sei se serei capaz de viver todas essas despedidas com a serenidade que imagino enquanto escrevo este texto.

O que sei é que crescer observando a minha mãe fez nascer em mim um desejo muito simples.

Gostaria de construir um lar onde meus filhos encontrem abrigo antes de encontrar respostas.

Gostaria que eles soubessem, mesmo quando o mundo parecer duro, que sempre existirão um lugar para voltar e um amor disposto a recomeçar.

Gostaria de vê-los descobrir quem são, mesmo que isso significasse abandonar muitas das expectativas que eu pudesse criar.

Porque, no fim das contas, amar alguém porventura nunca tenha sido segurá-lo para sempre.

Amar talvez seja preparar uma pessoa para seguir o próprio caminho e continuar torcendo por ela, mesmo quando a única forma de permanecer ao seu lado for através daquilo que você plantou no coração dela.


Se um dia eu tiver esse privilégio, espero lembrar da resposta que minha mãe me deu quando perguntei como era ser mãe.

Na época, achei que ela estava falando sobre despedidas.

Hoje entendo que ela estava falando sobre amor.

Porque talvez só exista uma maneira de ter o coração partido todos os dias sem deixar de agradecer por isso.

É quando cada despedida acontece porque alguém teve a liberdade de crescer.


Para continuar refletindo

Livros:

  • Adoráveis Mulheres (Louisa May Alcott).
  • Everything I Know About Love (Dolly Alderton).
  • Mães Arrependidas (Orna Donath).
  • A Coragem de Ser Imperfeito (Brené Brown).

Séries:

  • Desperate Housewives.
  • Big Little Lies.

Fontes

referências consultadas para este texto

  1. 01
    Playing and Reality — Donald W. Winnicott
    Origem da ideia de mãe "suficientemente boa"
    Livro
  2. 02
    Attachment and Loss - Volume I: Attachment — John Bowlby
    Teoria do apego
    Livro
  3. 03
    On Becoming a Person — Carl Rogers
    Livro
  4. 04
    Mães Arrependidas (Regretting Motherhood) — Orna Donath
    Livro
  5. 05
    A Coragem de Ser Imperfeito (The Gifts of Imperfection) — Brené Brown
    Livro
  6. 06
    Adoráveis Mulheres (Little Women) — Louisa May Alcott
    Livro
  7. 07
    Everything I Know About Love — Dolly Alderton
    Livro
  8. 08
    Desperate Housewives
    2004–2012
    Seriado
  9. 09
    Big Little Lies
    2017–2019
    Seriado
  10. 10
    Bíblia Sagrada, Isaías 49:15
    Referência