Quando a vida solteira vira uma sala de espera

Sobre pessoas que cresceram acreditando que a vida começa quando o amor chega.

Esses dias eu estava conversando com a minha amiga Lívia sobre relacionamento, sobre estar solteira e sobre como nós duas estávamos genuinamente felizes assim.

Felizes solteiras.

E eu acho que isso me assustou um pouco no começo porque, durante muito tempo, eu tratei a solteirice como uma fase provisória. Como se fosse um corredor entre um relacionamento e outro. Como se a vida adulta “real” começasse quando eu encontrasse alguém.

Só que no meio da conversa eu falei uma coisa que carrego desde muito nova:

eu tenho ansiedade de não saber quem vai ser o pai dos meus filhos.

Parece absurdo escrito assim.

Mas é verdade.

Desde pequena, eu penso nisso.

Quem ele vai ser.

Como ele vai ser.

Quando eu vou conhecê-lo.

Se eu já passei por ele em algum lugar sem saber.

E acho que o que mais me dá ansiedade não é nem o relacionamento em si. É a ideia de existir alguém que vai participar da minha vida inteira. Alguém que talvez vá construir uma família comigo. Alguém que eu ainda não conheço — ou talvez conheça sem saber.

Mesmo estando feliz solteira, eu continuo pensando nisso.

Porque acho que parte da gente cresceu tratando o amor como destino final.

Como se a grande conquista da vida fosse encontrar alguém.

Casar.

Construir uma família.

Ser amado.

Ser escolhido.

E eu quero tudo isso.

Quero casar.

Quero filhos.

Quero viver um amor bonito.

Mas percebi que, por muito tempo, eu transformei o futuro numa obsessão emocional.

Como se eu precisasse descobrir agora algo que talvez só faça sentido anos na frente.

E talvez por isso exista tanta gente tentando controlar o amor.

Astrologia.

Tarô.

Sinastria.

Manifestação.

Vídeos sobre destino.

“Como vou conhecer meu futuro marido.”

“Com quantos anos vou casar.”

No fundo, acho que tudo isso nasce da mesma coisa:

a ansiedade de não saber.


E então a Lívia falou uma coisa que sinceramente virou uma chave na minha cabeça.

Ela falou algo como:

“Amiga, você tem noção do quão sortuda a gente é por ainda existir possibilidade? A gente tem tempo. A gente ainda vai conhecer pessoas, viver coisas, descobrir coisas.”

E eu fiquei pensando nisso por dias.

Porque ela tinha razão.

Existe alguma coisa muito bonita em não saber.

Em ainda existir possibilidade.

Ao invés de pensar:

“meu Deus, eu ainda não encontrei a pessoa.”

pensar:

“minha vida ainda pode acontecer de mil formas diferentes.”

Porque a verdade é que a gente trata a vida solteira como sala de espera.

Como se tudo antes do amor definitivo fosse só intervalo.

Só que talvez esse seja justamente um dos períodos mais importantes da vida.


Existe uma sensação muito silenciosa de atraso que acompanha muita gente.

Como se existisse um relógio invisível correndo o tempo inteiro.

E isso aparece em tudo.

Na pressão pra casar.

Na comparação constante.

Na ideia de que todo mundo já encontrou alguém menos você.

Na sensação de que existe uma ordem certa pra viver.

Claro que isso pesa muito no universo feminino. Mulheres ainda crescem ouvindo mais sobre casamento, maternidade e amor romântico como metas emocionais de vida.

Mas eu não acho que isso pertença só às mulheres.

Porque no fundo, muita gente cresce acreditando que a vida só começa quando alguém chega.

E talvez seja exatamente aí que mora o problema.


Tem uma pergunta que ficou presa na minha cabeça desde essa conversa:

se alguém te dissesse hoje que você só vai encontrar o amor da sua vida daqui a dez anos… o que você faria até lá?

Você passaria esses dez anos esperando?

Ou viveria?

Porque eu acho que essa pergunta muda tudo.

Ela muda a lógica da espera.

A vida deixa de parecer ausência e começa a parecer construção.

Porque talvez o tempo sozinho nunca tenha sido um tempo vazio.

Talvez seja justamente o período em que a gente constrói quem vai ser quando o amor chegar.


Eu cresci ouvindo da minha mãe o quanto era importante saber ficar sozinha.

E acho que isso moldou muita coisa em mim.

Eu sempre fui uma criança muito solitária no sentido mais tranquilo da palavra. Sempre gostei do meu espaço, da minha companhia, do meu quarto, das minhas coisas, dos meus pensamentos.

E olhando hoje, acho que isso me preparou emocionalmente pra muitas coisas.

Pra lidar com distância.

Pra lidar com silêncio.

Pra entender que relações importantes não anulam quem eu sou individualmente.

Quando meu primeiro relacionamento acabou, por exemplo, eu consegui lidar com aquilo de uma forma muito consciente. Eu sofri, claro, mas eu sabia existir fora daquela relação.

E isso é muito importante.

Porque eu realmente acho que aprender a ser sozinho é uma das coisas mais necessárias da vida.

Só que ao mesmo tempo, eu também acho perigoso romantizar isolamento.

Porque existe uma diferença muito grande entre saber ficar sozinho e se fechar completamente pro mundo.

Se relacionar também exige coragem.

Criar vínculos exige esforço.

Abrir espaço pra alguém exige vulnerabilidade.

E amar alguém sempre vai trazer algum risco emocional.

Então eu não acho que o objetivo seja virar alguém completamente autossuficiente emocionalmente.

Acho que o objetivo é conseguir existir sozinho sem transformar relações em sobrevivência.


Depois do meu último relacionamento, eu fiquei praticamente um ano sem me envolver com ninguém.

E foi um tempo importante.

Eu precisava me curar.

Precisava entender meus limites.

Precisava voltar pra mim.

E acho bonito respeitar isso também.

Entender o próprio tempo.

Porque hoje eu consigo dizer que estou feliz solteira — mas não fechada pro amor.

E talvez essa seja a diferença.

Não estar desesperadamente esperando alguém chegar, mas também não viver como se amar fosse uma ameaça.


Só que quanto mais eu penso nisso, mais eu percebo uma coisa:

talvez a vida solteira seja uma das únicas fases em que a gente consegue existir completamente por conta própria.

E isso é uma bênção gigantesca.

Você pode mudar de cidade.

Pode viajar.

Pode começar uma pós-graduação.

Pode ir morar fora.

Pode descobrir coisas novas sobre você.

Pode aprender a ficar sozinho.

Pode entender o que gosta.

Pode criar rotina.

Pode mudar hábitos.

Pode começar terapia.

Pode cuidar da saúde.

Pode construir autoestima.

Pode descobrir quais sonhos realmente são seus.

Sem negociar cada decisão emocionalmente com outra pessoa.

E talvez a gente subestime muito isso.


Tem uma coisa muito pessoal em mim que também me fez perceber isso.

Tudo o que eu faço hoje é por mim, claro.

Mas também existe um pensamento muito constante sobre futuro.

Eu penso muito nos meus filhos.

Mesmo sem conhecê-los.

Eu quero que eles sintam orgulho de mim.

Quero que eles olhem pra mim um dia e pensem:

“minha mãe era inteligente.”

“minha mãe era gentil.”

“minha mãe era forte.”

“minha mãe construiu coisas.”

“minha mãe tinha coragem.”

Provavelmente isso influencia muito a maneira como eu vivo.

Porque eu também quero admiração dentro do amor.

Quero admirar a pessoa que estiver ao meu lado.

Mas quero que essa pessoa também admire quem eu me tornei.

Então, de certa forma, esse tempo sozinha também virou um espaço de construção pessoal.

Não pra merecer amor.

Mas pra construir a mulher que eu quero ser quando ele chegar.


E talvez essa seja uma das maiores viradas emocionais da vida adulta:

entender que existe diferença entre esperar amor e preparar a própria vida.

Porque esperar paralisa.

Mas construir transforma.

E acho que a gente fala muito sobre encontrar “a pessoa certa”, mas quase ninguém fala sobre se tornar alguém que você mesma admire.

Alguém interessante.

Emocionalmente disponível.

Gentil.

Inteligente.

Curiosa.

Feliz com a própria vida.

Porque no fim das contas, talvez o relacionamento mais importante da nossa vida seja justamente aquele que temos com nós mesmos antes de qualquer outra pessoa chegar.


E honestamente?

Talvez uma das partes mais bonitas do amor seja justamente não saber.

Não saber quando vai acontecer.

Não saber onde.

Não saber quem.

Porque enquanto isso não acontece, a vida continua existindo inteira.

Talvez existir possibilidade seja uma das coisas mais bonitas que existem.

Porque significa que ainda existe futuro.

Ainda existe encontro.

Ainda existe surpresa.

Ainda existe construção.

E talvez a vida solteira nunca tenha sido uma sala de espera.

Talvez ela seja justamente a parte onde a gente aprende a viver antes de dividir a vida com alguém.

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