Quando a felicidade vira uma obrigação
Sobre a Geração Z, a busca por uma vida feliz e o desconforto de descobrir que viver também é suportar o que não queremos.
Há algum tempo, assisti a uma conversa publicada pela Porta dos Fundos, com Gregório Duvivier e João Vicente, que me fez pensar em uma característica muito particular da minha geração: a necessidade de encontrar felicidade naquilo que fazemos. Não me lembro exatamente de quando essa ideia começou a aparecer na minha própria vida, mas reconheço cada vez mais a sua presença nas conversas que tenho, nas pessoas que conheço e na maneira como nós, jovens, falamos sobre futuro, carreira, relacionamentos e escolhas.
Queremos gostar do curso que fazemos, trabalhar com alguma coisa que tenha propósito, construir relações saudáveis, ter tempo para nossos amigos, cuidar da nossa saúde, viajar e aproveitar a juventude. Existe uma preocupação legítima em não transformar a própria existência em uma sequência de obrigações e sacrifícios, e considero isso uma conquista importante. Durante muito tempo, sucesso foi associado à capacidade de trabalhar mais, ganhar mais e chegar mais longe, mesmo quando o preço era uma vida inteira organizada ao redor do trabalho.
A Geração Z parece ter começado a questionar essa lógica. O problema é que, no meio dessa mudança, acabamos criando outra expectativa igualmente difícil de sustentar: a ideia de que a vida precisa nos fazer felizes enquanto acontece.
Há uma diferença enorme entre querer uma vida feliz e precisar que tudo nela seja feliz.
A vida adulta tem uma característica que ninguém consegue explicar completamente antes de vivê-la: muitas das coisas que constroem uma existência desejável não são necessariamente prazerosas enquanto acontecem.
A faculdade que escolhemos pode nos frustrar. A profissão que desejamos pode nos cansar. Um relacionamento que amamos pode atravessar períodos difíceis. Construir independência envolve contas, responsabilidades e decisões que nem sempre despertam entusiasmo. Até aquilo que escolhemos por vontade própria pode, em determinados momentos, parecer pesado.
Isso não significa que devemos romantizar sofrimento ou permanecer em situações que nos fazem mal. Existe uma diferença fundamental entre suportar uma dificuldade própria de um processo e aceitar uma realidade que está nos destruindo.
O que me interessa é justamente o espaço entre essas duas coisas.
Aprendemos muito bem a perguntar se alguma coisa está nos fazendo bem, mas ainda estamos aprendendo a perguntar o que aquela coisa está construindo.
A segunda pergunta é menos confortável. Ela exige paciência e, principalmente, exige aceitar que nem todo resultado aparece imediatamente.
Essa mudança de perspectiva também aparece quando observamos a relação da Geração Z com o trabalho.
A pesquisa 2026 Gen Z and Millennial Survey, da Deloitte, mostra que apenas 6% dos entrevistados dessas gerações apontam alcançar uma posição de liderança como principal objetivo profissional. Entre as principais barreiras percebidas para assumir posições de liderança estão estresse e burnout, excesso de responsabilidade e dificuldade de preservar o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. No Brasil, entretanto, o mesmo levantamento aponta que 69% da Geração Z afirmam ter interesse em ocupar uma posição de liderança em algum momento da carreira.
Essa diferença diz muito.
Não parece ser uma geração sem ambição. Parece ser uma geração que começou a questionar o preço de determinadas ambições.
Talvez uma pessoa queira chegar à direção de uma empresa, mas não queira passar vinte anos vivendo exclusivamente para chegar lá. Talvez alguém prefira ganhar menos se isso significar ter tempo para a família, para os amigos ou para si mesmo. Talvez o sonho de uma carreira bem-sucedida tenha deixado de ser suficiente quando separado de todo o restante da vida.
Eu não acho isso ruim.
Existe alguma lucidez em perceber que um cargo não deveria exigir o desaparecimento da pessoa que o ocupa.
Mas existe também uma questão que precisamos enfrentar: quando o desejo legítimo de ter qualidade de vida começa a se transformar em incapacidade de suportar qualquer desconforto?
Porque trabalhar é difícil.
Estudar é difícil.
Construir uma carreira é difícil.
Manter um relacionamento é difícil.
Morar sozinho é difícil.
Conviver com outras pessoas é difícil.
E nenhuma dessas dificuldades significa, necessariamente, que estamos fazendo alguma coisa errada.
A psicologia reconhece que também nos adaptamos às experiências positivas. A chamada adaptação hedônica, estudada por Sonja Lyubomirsky em Hedonic Adaptation to Positive and Negative Experiences, descreve a tendência de nossa resposta emocional às experiências positivas diminuir à medida que elas se tornam familiares. Uma conquista pode nos proporcionar uma enorme satisfação e, depois de algum tempo, tornar-se parte da vida cotidiana.
Isso acontece com conquistas, relacionamentos, dinheiro, viagens e até com aquilo que chamamos de “emprego dos sonhos”.
Não porque essas coisas deixem de ter valor, mas porque o ser humano não permanece indefinidamente no mesmo estado emocional diante de uma experiência.
Por isso é tão perigoso construir uma vida em torno da próxima sensação de felicidade.
Sempre haverá outra coisa que parece capaz de produzi-la.
E nós crescemos em um ambiente que nos apresenta essas possibilidades o tempo inteiro.
Através da tela, vemos pessoas viajando enquanto estamos trabalhando, começando empresas enquanto ainda estamos procurando nosso primeiro emprego, comprando apartamentos enquanto pensamos no aluguel, casando enquanto estamos solteiros, mudando de país enquanto continuamos na mesma cidade.
A vida dos outros chega editada até nós, enquanto a nossa continua acontecendo em sua forma mais banal.
Não é possível dizer que as redes sociais, sozinhas, causam depressão ou ansiedade. A realidade é muito mais complexa do que isso. Mas a literatura científica recente encontra associações entre o uso problemático de redes sociais e diferentes indicadores de saúde mental. A meta-análise Association between problematic social networking use and anxiety symptoms, de Du et al., encontrou associação entre uso problemático de redes sociais e sintomas de ansiedade, enquanto a revisão sistemática Social media use, mental health and sleep encontrou associações entre uso problemático das redes, depressão, ansiedade e menor bem-estar entre jovens.
A questão mais interessante não é apenas quanto tempo passamos diante das telas, mas o que aprendemos a esperar da nossa própria vida enquanto observamos a vida dos outros.
Uma terça-feira comum começa a parecer pequena quando passamos horas assistindo a momentos extraordinários. Uma rotina necessária parece desperdício. Um processo lento parece fracasso. Uma fase difícil parece um sinal de que deveríamos estar em outro lugar.
E, sem perceber, começamos a exigir da realidade a mesma intensidade que encontramos no conteúdo que consumimos.
Só que a vida real não foi feita para ser interessante o tempo inteiro.
Foi pensando nisso que comecei a enxergar minha própria rotina de uma maneira diferente.
Hoje gosto de pensar que algumas das coisas que faço são uma espécie de devoção ao futuro. Estudo para uma pessoa que ainda não sou, trabalho pensando em uma carreira que ainda estou construindo e mantenho responsabilidades porque existe uma versão de mim que ainda não conheço completamente, mas que dependerá das escolhas que faço agora.
Isso mudou minha relação com a disciplina.
Nem tudo precisa me proporcionar prazer imediatamente para possuir valor.
Minha mãe costuma dizer:
“A vida não é feliz, mas é feita de momentos felizes.”
Quanto mais cresço, mais compreendo a diferença. Trabalhamos durante a semana para descansar no fim dela, estudamos durante anos para construir uma profissão, economizamos durante meses para viajar e atravessamos períodos cansativos porque existe alguma coisa que consideramos importante esperando adiante.
Isso não transforma o cansaço em virtude nem significa que devemos aceitar qualquer sofrimento. Significa apenas reconhecer que nem todo esforço precisa ser prazeroso para ser valioso.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas que a Geração Z trouxe consigo: a coragem de perguntar se aquilo que sempre foi considerado sucesso realmente corresponde à vida que queremos ter.
Eu não quero voltar a uma época em que trabalhar até a exaustão era sinal de mérito. Não quero acreditar que um salário alto compensa qualquer ausência, nem que um cargo importante vale mais do que as pessoas, os vínculos e os momentos que deixamos de viver para alcançá-lo.
Mas também não quero cair no extremo oposto, em que toda dificuldade é interpretada como um sinal de que deveríamos abandonar o caminho.
Quero poder amar uma profissão e ainda ter dias em que não queira trabalhar. Quero estudar alguma coisa que escolhi e me sentir cansada dela em alguns momentos. Quero construir relações que sejam bonitas o suficiente para sobreviverem às fases em que amar exige mais esforço do que encanto. Quero ter uma vida com sentido sem exigir que cada parte dela me ofereça prazer.
Talvez amadurecer seja aprender a diferenciar aquilo que realmente precisa ser mudado daquilo que simplesmente precisa ser atravessado.
Por isso, não acho que a Geração Z precise aprender a desejar menos felicidade. Precisa apenas retirar dela uma responsabilidade que ela nunca poderia carregar: a de justificar todos os dias da nossa existência.
Uma vida boa não será formada apenas pelos momentos em que sentimos entusiasmo. Haverá trabalho, espera, repetição, frustração, responsabilidade e dias que não terão absolutamente nada de especial. Haverá também as conversas que fazem uma semana inteira valer a pena, a viagem planejada durante meses, uma conquista que finalmente chega, um jantar com quem amamos, uma manhã tranquila, uma descoberta sobre nós mesmos. São esses momentos que dão textura à existência, justamente porque não acontecem o tempo inteiro.
A vida fica mais leve quando entendemos que não precisamos estar felizes durante todo o caminho para ter certeza de que estamos indo na direção certa. Eu não quero uma vida em que cada dia seja extraordinário; quero uma vida em que os dias comuns também tenham significado, em que eu consiga trabalhar por aquilo que desejo, atravessar o que for necessário e ainda reconhecer beleza no intervalo entre uma conquista e outra.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja “isso está me fazendo feliz?”, mas “isso está construindo a vida que eu quero viver?”
A primeira pergunta pertence ao presente, enquanto a segunda também consegue olhar para tudo aquilo que ainda estamos nos tornando. E crescer é aprender a conviver com essa diferença: compreender que haverá momentos em que a resposta para a primeira será não, sem que isso signifique necessariamente que a segunda também seja.
Nem todos os dias precisam ser felizes para que a vida seja.
Ponto de partida
A reflexão deste texto nasceu de um reel publicado pela Porta dos Fundos, com Gregório Duvivier e João Vicente, sobre a relação da geração atual com a busca pela felicidade. O vídeo não é utilizado como fonte científica, mas como a provocação inicial que me levou a observar esse comportamento na minha própria geração e a investigar suas possíveis relações com trabalho, bem-estar, disciplina e saúde mental.
Para continuar refletindo
Livro:
- Man’s Search for Meaning (Viktor Frankl).
Estudos e pesquisas:
- Hedonic Adaptation to Positive and Negative Experiences (Sonja Lyubomirsky).
- Gen Z and Millennial Survey (Deloitte).
Para pensar
Se uma vida boa não é uma vida feliz o tempo inteiro, o que estamos dispostos a continuar construindo nos dias em que a felicidade não aparece?
Fontes →
referências consultadas para este texto
- 01
- 02 Hedonic Adaptation to Positive and Negative Experiences — Sonja LyubomirskyBase da discussão sobre adaptação hedônica e a mudança da nossa resposta emocional às experiências ao longo do tempo.Oxford Academicver online ↗
- 03 Social media use, mental health and sleep: A systematic review with meta-analyses — Oli Ahmed et al.Relação entre uso de redes sociais, depressão, ansiedade, bem-estar e sono em jovens.Journal of Affective Disorders (2024)ver online ↗
- 04 Association between problematic social networking use and anxiety symptoms: a systematic review and meta-analysis — Mingxuan Du et al.BMC Psychology (2024)ver online ↗
- 05 Social anxiety and problematic social media use: A systematic review and meta-analysis — Wenfeng Wu; Liangrong Huang; Fang YangAddictive Behaviors (2024)ver online ↗