Por que falamos tão pouco sobre as amizades dos vinte e poucos anos?
As relações que escolhemos construir quando a vida adulta finalmente começa.
“Crescemos acreditando que as amizades mais importantes da nossa vida seriam aquelas que começaram cedo. Mas existe, quem sabe, um tipo de amizade sobre o qual falamos muito menos: aquela que nasce justamente quando estamos aprendendo quem nos tornaremos.”
Existe um imaginário coletivo sobre amizade que aprendemos muito cedo.
Quando pensamos nas pessoas mais importantes da nossa história, quase sempre lembramos daquelas que conheceram nossa infância, dividiram a mesma sala de aula ou acompanharam as primeiras versões de quem fomos. São essas relações que costumam ocupar espaço nas lembranças, nas fotografias antigas e também nas histórias que contamos sobre nós mesmos. Não por acaso, boa parte dos filmes, séries e livros reforça essa ideia. As amizades que atravessam décadas costumam ser retratadas como as mais verdadeiras, como se o tempo fosse a principal medida da importância de um vínculo.
É difícil não se emocionar com esse tipo de narrativa. Existe algo profundamente bonito em imaginar pessoas crescendo juntas, acompanhando as mudanças umas das outras e permanecendo presentes apesar do tempo.
Mas essa é apenas uma parte da história.
Existe uma fase da vida sobre a qual conversamos muito menos. Uma fase em que algumas pessoas naturalmente deixam de caminhar ao nosso lado e, quase sem percebermos, outras passam a ocupar um espaço que jamais imaginávamos oferecer a alguém. Não porque substituem amizades antigas, mas porque passam a fazer parte de uma versão diferente de quem somos.
Essa fase costuma começar por volta dos vinte e poucos anos.
É justamente quando a vida deixa de seguir um roteiro previsível.
É curioso perceber como falamos pouco sobre isso. Quando pensamos em amadurecimento, quase sempre discutimos carreira, relacionamentos amorosos, independência financeira ou os desafios de entrar na vida adulta. Raramente nos perguntamos o que acontece com nossas amizades durante esse processo, como elas mudam ou por que algumas das pessoas mais importantes da nossa vida chegam justamente quando acreditávamos que os grandes vínculos já haviam sido construídos.
É possível que isso aconteça porque crescemos associando amizade à permanência, quando, na realidade, ela também é transformação.
Durante boa parte da infância e da adolescência, nossas relações são profundamente influenciadas pelos lugares que frequentamos. Fazemos amigos porque estudamos na mesma escola, moramos no mesmo bairro, treinamos no mesmo esporte ou convivemos diariamente. A proximidade cria oportunidades de encontro e, muitas vezes, é dela que nasce a intimidade. Não há nada de errado nisso. Pelo contrário. Muitas das amizades mais bonitas começam exatamente dessa forma.
O que raramente percebemos é que essa lógica muda conforme crescemos.
A vida adulta reorganiza completamente a maneira como conhecemos pessoas. Os ambientes deixam de ser permanentes, as rotinas deixam de coincidir e as escolhas individuais passam a ocupar um espaço muito maior do que antes. Amigos mudam de cidade, iniciam carreiras diferentes, constroem novas prioridades, formam famílias ou simplesmente seguem caminhos que já não se cruzam com a mesma frequência.
Isso não significa, necessariamente, que essas relações perderam importância.
Significa apenas que elas também são atravessadas pelas transformações da vida.
Essa mudança é tão comum que se tornou objeto de estudo de diferentes pesquisadores. O psicólogo Jeffrey Jensen Arnett, professor da Clark University, descreve o período entre aproximadamente os dezoito e os vinte e nove anos como uma etapa particular do desenvolvimento humano, que ele chamou de Emerging Adulthood. Segundo Arnett, trata-se de uma fase marcada por intensas mudanças de identidade, de projetos profissionais, de relações afetivas e da própria maneira como os indivíduos compreendem quem são e quem desejam se tornar. Não é apenas uma continuação da adolescência, tampouco uma vida adulta plenamente consolidada. É um período de experimentação, no qual quase tudo ainda está sendo construído.
Fonte: Jeffrey Jensen Arnett. Emerging Adulthood: The Winding Road from the Late Teens Through the Twenties. Oxford University Press, 2014.
Pode ser justamente por isso que as amizades construídas nessa etapa carreguem um significado diferente.
Elas não conhecem apenas a criança que fomos ou o adolescente que sonhava com o futuro. Elas conhecem alguém que ainda está aprendendo a existir como adulto. Acompanham escolhas que já não são determinadas pela escola ou pela família, mas por decisões próprias. Presenciam as primeiras frustrações profissionais, as inseguranças que surgem quando percebemos que ninguém realmente sabe o que está fazendo e a descoberta, muitas vezes desconfortável, de que crescer significa abrir mão de algumas certezas.
Ao contrário das amizades da infância, essas relações costumam nascer em um momento em que já temos maior consciência de quem somos e do que valorizamos. É justamente por isso que elas deixam de depender apenas da convivência e passam a se sustentar em algo menos visível, mas ainda mais profundo: a identificação.
Não escolhemos mais permanecer próximos apenas porque compartilhamos o mesmo espaço físico. Permanecemos porque compartilhamos conversas, valores, maneiras semelhantes de enxergar o mundo e, muitas vezes, vulnerabilidades que só aparecem quando a vida começa a exigir mais de nós.
Essa pode ser uma das maiores mudanças da amizade na vida adulta.
Ela deixa de ser consequência da rotina e passa a ser resultado de uma escolha.
Essa ideia aparece também nos estudos do antropólogo britânico Robin Dunbar, conhecido por pesquisar como os seres humanos constroem e mantêm relações sociais ao longo da vida. Dunbar argumenta que amizade não depende apenas de afinidade emocional; ela exige investimento contínuo de tempo, atenção e disponibilidade. Em outras palavras, relações próximas não permanecem apenas porque um dia foram importantes. Elas precisam continuar sendo cultivadas.
Essa observação parece simples, mas ajuda a explicar um sentimento bastante comum entre pessoas na faixa dos vinte e poucos anos: a impressão de que algumas amizades se enfraquecem mesmo sem que tenha existido uma briga, um conflito ou qualquer grande ruptura.
Às vezes, simplesmente deixamos de compartilhar a mesma vida.
Fonte: Robin Dunbar. Friends: Understanding the Power of Our Most Important Relationships. Little, Brown Book Group, 2021.
Durante muito tempo acreditei que amizades terminavam apenas quando alguém cometia um erro. Possivelmente porque essa seja a forma como costumamos aprender sobre relações desde cedo. Filmes apresentam grandes rompimentos. Livros contam histórias de traições, conflitos ou desentendimentos. Quase sempre existe um acontecimento específico que explica por que duas pessoas deixaram de caminhar juntas.
A vida adulta, porém, parece funcionar de maneira diferente.
Algumas amizades não terminam.
Elas apenas deixam de ocupar o mesmo lugar.
Não porque alguém tenha feito algo imperdoável, mas porque duas pessoas passaram a viver realidades que já não se encontram com a mesma frequência. É uma mudança silenciosa, difícil de identificar e, justamente por isso, difícil de elaborar. Não existe um momento exato em que percebemos que aquela amizade deixou de ser cotidiana. Há apenas um intervalo crescente entre uma conversa e outra, entre um encontro e outro, até que a relação passa a existir muito mais na memória do que na rotina.
Pode ser essa a razão de tantas pessoas experimentarem uma espécie de luto que raramente recebe esse nome.
Não se trata apenas da ausência de alguém.
Trata-se da compreensão de que crescer também significa aceitar que algumas relações cumprem seu papel em determinado momento da vida, sem que isso diminua a importância que tiveram.
E essa seja justamente a parte mais difícil de aceitar.
Porque fomos ensinados a acreditar que relações verdadeiras são aquelas que permanecem para sempre. Quase nunca aprendemos que algumas amizades podem ser profundamente importantes justamente porque existiram no momento em que mais precisávamos delas, ainda que não acompanhem todas as fases da nossa história.
A percepção de que algumas amizades pertencem a determinados momentos da vida não torna essas relações menos verdadeiras. Pelo contrário. É justamente essa capacidade de acompanhar diferentes versões de quem somos que explica por que a amizade continua sendo um dos vínculos mais importantes da experiência humana.
Ao longo dos últimos anos, diferentes pesquisas passaram a demonstrar que amizade não está associada apenas à sensação de companhia. Ela influencia diretamente aspectos relacionados à saúde física, à saúde mental e ao bem-estar ao longo da vida.
Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema é o Harvard Study of Adult Development, iniciado em 1938 e considerado a pesquisa longitudinal mais longa já realizada sobre felicidade e desenvolvimento humano. Depois de acompanhar participantes durante décadas, os pesquisadores chegaram a uma conclusão que parece simples, mas continua sendo profundamente significativa: a qualidade dos relacionamentos é um dos fatores que mais influenciam bem-estar, saúde e satisfação com a vida. Não se trata apenas de relações amorosas ou familiares. Amizades próximas também aparecem como parte importante desse resultado.
Fonte: Harvard Study of Adult Development – Harvard University. Robert Waldinger e Marc Schulz. The Good Life: Lessons from the World’s Longest Scientific Study of Happiness. Simon & Schuster, 2023.
Esse dado ajuda a compreender por que tantas pessoas sentem falta de amizades mesmo quando estão cercadas de colegas de trabalho, conhecidos ou contatos nas redes sociais. Estar em contato constante com outras pessoas não significa, necessariamente, sentir pertencimento.
Existe uma diferença importante entre convivência e vínculo.
Convivemos diariamente com inúmeras pessoas. Dividimos escritórios, salas de aula, reuniões e ambientes profissionais. Criar intimidade, porém, exige algo que vai muito além da frequência dos encontros. Exige confiança suficiente para compartilhar dúvidas, inseguranças e expectativas sem a necessidade de sustentar uma imagem o tempo inteiro.
É justamente por isso que as amizades construídas durante a vida adulta tenham características diferentes das que desenvolvemos na infância.
Quando somos crianças, quase todas as nossas relações acontecem dentro de contextos organizados por outras pessoas. Pais escolhem a escola, professores organizam as turmas, horários determinam a convivência. Existe pouco espaço para decidir quem permanecerá ao nosso lado.
Depois dos vinte anos, essa dinâmica muda completamente.
As amizades passam a nascer em ambientes onde ninguém é obrigado a permanecer. A universidade termina, colegas mudam de emprego, projetos chegam ao fim e cidades deixam de ser permanentes. Se a relação continua existindo, normalmente é porque ambas as pessoas encontraram motivos para continuar investindo nela.
É uma escolha.
Essa pode ser uma das maiores diferenças entre as amizades da adolescência e aquelas que construímos ao longo da vida adulta.
Na adolescência, muitas relações sobrevivem porque a rotina favorece o encontro. Aos vinte e poucos anos, elas permanecem porque existe interesse em continuar construindo uma história em comum.
Isso também ajuda a explicar por que tantas amizades importantes surgem justamente nessa fase da vida.
Costumamos imaginar que as pessoas mais marcantes serão aquelas que acompanharam nossa infância. No entanto, existe algo muito particular nas relações que conhecem apenas a versão adulta de quem somos.
Esses amigos não sabem quem éramos aos doze anos.
Não participaram das nossas festas de aniversário.
Não conheceram os professores que marcaram nossa adolescência.
Eles conhecem outra versão.
Conhecem a pessoa que está aprendendo a trabalhar, que enfrenta as primeiras inseguranças profissionais, que começa a construir autonomia financeira, que experimenta relações amorosas mais maduras e que, muitas vezes, ainda tenta descobrir quais valores deseja carregar para o restante da vida.
Por isso, essas amizades produzem um sentimento diferente.
Elas não carregam o peso da nostalgia.
Carregam o privilégio de testemunhar uma transformação acontecendo em tempo real.
É interessante perceber que essa fase também costuma modificar a maneira como entendemos proximidade. Quando somos mais novos, é comum acreditar que amizade significa estar presente em todos os momentos. Com o passar dos anos, essa ideia vai sendo substituída por outra, mais silenciosa e até mais generosa.
Descobrimos que algumas pessoas permanecem importantes mesmo quando a rotina já não permite encontros frequentes.
A amizade deixa de ser medida apenas pelo tempo compartilhado e passa a ser reconhecida pela qualidade da presença quando ela acontece.
Amadurecer também pode significar compreender isso.
Nem toda relação precisa existir diariamente para continuar sendo significativa.
Ao mesmo tempo, a vida adulta também apresenta um desafio que raramente aparece nas histórias que contamos sobre amizade: a dificuldade de construir novos vínculos.
Existe uma crença bastante difundida de que fazer amigos depois dos vinte ou trinta anos é muito mais difícil. Em parte, essa percepção faz sentido. A rotina torna-se mais exigente, o trabalho ocupa grande parte do tempo, responsabilidades aumentam e os espaços de convivência espontânea diminuem.
Mas essa dificuldade pode não estar apenas na falta de tempo.
Ela também está no fato de que crescer nos torna mais conscientes das nossas vulnerabilidades.
Na infância, aproximar-se de alguém costuma acontecer com naturalidade. Na vida adulta, existe mais receio de rejeição, mais cautela para confiar e, muitas vezes, a impressão de que todos já possuem seus próprios círculos sociais.
Ainda assim, quando essas barreiras são superadas, as amizades que surgem costumam ser construídas sobre bases diferentes.
Não são sustentadas apenas por proximidade.
São sustentadas por escolha.
E é justamente essa escolha que lhes atribui um significado tão particular.
Ao longo da vida, acumulamos fotografias, lembranças e histórias que nos ajudam a compreender quem fomos. Mas também existem pessoas que passam a fazer parte da nossa identidade não porque estavam presentes desde o início, e sim porque chegaram exatamente quando começávamos a descobrir quem queríamos ser.
Pode ser por isso que falemos tão pouco sobre as amizades dos vinte e poucos anos.
Elas não carregam o apelo romântico da infância nem a nostalgia das histórias que atravessam décadas.
Elas costumam ser discretas.
Começam em uma sala de aula da universidade, em um estágio, em um café depois do expediente, em uma conversa que parecia comum e que, sem percebermos, se transforma em uma das relações mais importantes da nossa vida.
Quase nunca sabemos, no momento em que essas pessoas aparecem, o espaço que ocuparão no futuro.
E há algo bonito justamente nessa imprevisibilidade.
Porque crescer também significa descobrir que algumas das pessoas que mais marcarão nossa história ainda não chegaram.
E isso torna a vida adulta menos solitária do que, às vezes, imaginamos.
Observação metodológica
Este artigo reúne reflexões autorais apoiadas em pesquisas da psicologia, da sociologia e do desenvolvimento humano sobre amizade, pertencimento e vida adulta. As interpretações apresentadas procuram dialogar com a literatura científica disponível, sem a intenção de estabelecer relações universais ou definitivas. O objetivo é propor uma reflexão sobre um aspecto da vida adulta que costuma receber menos atenção: a maneira como construímos, perdemos e transformamos nossas amizades ao longo dos vinte e poucos anos.
Para continuar refletindo
Livros:
- Friends (Robin Dunbar).
- The Good Life (Robert Waldinger e Marc Schulz).
- Emerging Adulthood (Jeffrey Jensen Arnett).
- Bowling Alone (Robert D. Putnam).
- Flourish (Martin Seligman).
- Atlas of the Heart (Brené Brown).
Filmes:
- Frances Ha (2012).
- Little Women (2019).
- The Perks of Being a Wallflower (2012).
- Stand by Me (1986).
- The Breakfast Club (1985).
Séries:
- Normal People.
- Somebody Somewhere.
- Friends.
- Sex and the City.
Pesquisas:
- Harvard Study of Adult Development.
- Jeffrey Jensen Arnett — Emerging Adulthood.
- Robin Dunbar — estudos sobre amizade e relações sociais.
Fontes →
referências consultadas para este texto
- 01 Emerging Adulthood: The Winding Road from the Late Teens Through the Twenties — Jeffrey Jensen ArnettLivro (Oxford University Press, 2014)
- 02 Friends: Understanding the Power of Our Most Important Relationships — Robin DunbarLivro (Little, Brown Book Group, 2021)
- 03 The Good Life: Lessons from the World's Longest Scientific Study of Happiness — Robert Waldinger; Marc SchulzLivro (Simon & Schuster, 2023)
- 04 Harvard Study of Adult Development — Harvard UniversityPesquisa longitudinal (desde 1938)ver online ↗