O amor não é um antídoto

Sobre saúde mental, relações e a esperança de ser salvo por alguém.

Existe uma sensação muito específica em entrar num relacionamento acreditando que, dessa vez, alguma coisa dentro de você finalmente vai parar de doer.

Como se amar alguém — e ser amado de volta — pudesse reorganizar tudo.

Como se o vazio diminuísse. Como se a ansiedade silenciasse. Como se a tristeza encontrasse descanso dentro de outra pessoa.

E talvez seja justamente sobre isso que Olivia Rodrigo fala em The Cure.

Logo no começo da música, ela canta sobre ter pensado que finalmente tinha encontrado “o antídoto”.

E essa escolha de palavra muda completamente a interpretação da canção.

Porque um antídoto só existe quando existe algo tentando sobreviver a um veneno.

Ou seja: antes daquela relação, antes daquele amor, antes daquela tentativa de ser feliz com alguém, já existia alguma coisa doendo.

Já existia melancolia.

Já existia ansiedade.

Já existia vazio.

Já existiam pensamentos ruins.

E talvez uma das maiores questões emocionais da nossa geração seja exatamente essa: a quantidade de pessoas que entram em relacionamentos esperando que eles curem coisas que começaram muito antes deles.

Porque a gente cresceu ouvindo que amor salva.

Que encontrar a pessoa certa muda tudo. Que ser amado profundamente resolve o vazio. Que alguém vai chegar e finalmente nos fazer sentir completos.

Só que talvez essa seja uma das ideias mais perigosas que a romantização do amor criou.


A própria Olivia continua a música descrevendo uma solidão que não é física, mas emocional — a sensação de estar acompanhada e, ainda assim, distante. Ela fala sobre noites inteiras em que os próprios pensamentos se tornam um lugar difícil de habitar, e sobre a tentativa de alguém que ama de “retirar as toxinas” que ela sente dentro de si.

Mas o que a música revela, no fundo, é que mesmo diante de um amor presente, cuidadoso e genuíno, existe algo que não se dissolve simplesmente pela presença do outro.

E é aqui que a ideia de amor como antídoto começa a falhar.

Porque existem dores internas que não desaparecem só porque alguém nos ama profundamente.


Ao mesmo tempo, existe também o outro lado dessa história.

O lado da pessoa que ama tanto alguém que começa a acreditar que, se insistir o suficiente, vai conseguir salvar aquela relação — ou aquela pessoa.

E isso aparece em diferentes narrativas, mas talvez uma das mais profundas seja Looking for Alaska, de John Green.

Mais do que uma história sobre amor adolescente, o livro é atravessado por uma inquietação existencial constante: a tentativa de entender a dor, o vazio e a própria ideia de sentido.

Alaska Young não é apenas uma personagem melancólica. Ela é alguém que vive dentro de uma pergunta que nunca encontra resposta — e isso estrutura toda a forma como ela existe na narrativa.

Essa pergunta aparece logo como uma metáfora central do livro, quando o conceito do “labirinto” é apresentado:

“Passamos a vida inteira no labirinto, perdidos, pensando em como um dia conseguiremos escapar e em quanto será legal. Imaginar esse futuro é o que nos impulsiona para a frente, mas nunca fazemos nada. Simplesmente usamos o futuro para escapar do presente. ‘Como eu sairei deste labirinto de sofrimento?’”

O que torna essa passagem tão importante não é a ideia de saída, mas justamente a ausência dela.

Porque a pergunta não existe para ser resolvida — ela existe para ser vivida.

E isso muda completamente a forma como Alaska deve ser lida ao longo da história: ela não está tentando sair do labirinto como quem busca uma solução, ela já habita esse lugar como condição emocional.

Essa lógica se aprofunda ainda mais na relação dela com o professor Dr. Hyde.

Em uma das conversas centrais da obra, Alaska diz:

“My question doesn’t have an answer.”

E ele responde:

“All the best questions don’t.”

Esse diálogo desloca completamente a ideia de que sofrimento precisa necessariamente de resolução.

O livro sugere algo mais desconfortável, mas mais real: algumas perguntas não têm resposta, e isso não as torna menos verdadeiras.

Elas simplesmente existem.

E talvez isso se conecte diretamente com o que este texto tenta construir: a ideia de que nem toda dor precisa ser curada por algo externo — especialmente pelo amor.


Essa dimensão aparece de forma ainda mais sensível na relação entre Miles e Alaska.

Miles se aproxima dela como quem tenta entender algo que escapa constantemente. Existe nele uma tentativa silenciosa de organizar aquilo que parece fragmentado — como se amor, atenção e presença fossem capazes de reorganizar uma mente em colapso.

Mas Alaska nunca se deixa completamente alcançar.

E isso reforça uma das ideias centrais deste texto:

o amor pode ser intenso, transformador e real — mas não necessariamente é capaz de reorganizar uma dor que já existe dentro de alguém antes da relação.


E essa lógica não é exclusiva dessa história.

Ela aparece em diferentes narrativas que exploram esse mesmo limite entre amor e salvação.

Em Normal People, de Sally Rooney, Marianne e Connell se amam profundamente, mas continuam atravessando solidões internas que o amor não resolve.

Em Her, o protagonista encontra acolhimento emocional, mas não consegue sair do próprio isolamento existencial.

Em Skins, Cassie e Sid vivem um amor intenso que não impede o colapso emocional de ambos.

Em The Perks of Being a Wallflower, Charlie tenta ser amado enquanto ainda enfrenta dores que não sabem como se organizar dentro dele.

Em todos esses casos, o amor não falha — o que falha é a expectativa de que ele fosse suficiente.


Talvez o ponto mais difícil de tudo isso seja perceber que existem dores que não deixam de existir quando são amadas.

E isso não diminui o amor.

Só o coloca no lugar certo.


E talvez Looking for Alaska seja justamente a obra que melhor traduz essa reflexão inteira.

Porque, no fim, ela não entrega uma resposta.

Ela entrega uma permanência.

Uma pergunta que continua existindo mesmo depois do fim.

Uma pergunta que, dentro da lógica do livro, não deveria necessariamente ser respondida — apenas compreendida como parte da experiência humana.

E isso fica ainda mais claro na ideia do labirinto: a possibilidade de que talvez não exista uma saída definitiva, mas apenas formas diferentes de atravessar o que nos atravessa.

Porque, talvez, o erro não seja estar no labirinto.

Mas acreditar que ele precisa ter uma saída clara para fazer sentido.

Fontes

referências consultadas para este texto

  1. 01
    The Cure — Olivia Rodrigo
    Música
    ver online
  2. 02
    Looking for Alaska — John Green
    Livro
  3. 03
    The Perks of Being a Wallflower
    Filme
  4. 04
    Normal People — Sally Rooney
    Livro
  5. 05
    Her
    Filme
  6. 06
    Skins
    Seriado
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