O amor genuíno desperta a vontade de ser melhor

Existem encontros que mudam muito mais do que a nossa história. Eles mudam a maneira como escolhemos viver todos os dias.

Sempre ouvi que o amor transforma as pessoas.

Durante muito tempo, achei que essa frase dizia respeito apenas aos relacionamentos amorosos. Imaginava que amar alguém significava dividir a vida, fazer planos, aprender a conviver com as diferenças e construir uma história ao lado de outra pessoa. Hoje, penso que essa é apenas uma das formas de experimentar o amor.

A transformação mais profunda não acontece quando encontramos um namorado, uma namorada ou alguém com quem desejamos construir uma família. Ela acontece quando, pela primeira vez, encontramos um amor genuíno, seja ele vindo de Deus, da nossa família, dos amigos ou de qualquer relação que nos faça acreditar que existe uma maneira mais bonita de viver.

Foi observando a minha própria vida que comecei a perceber isso.

Sempre tive vontade de aprender. Gostava de estudar, de escrever, de conhecer histórias diferentes, de entender melhor as pessoas e de construir uma vida que fizesse sentido. Mas, olhando para trás, percebo que esse desejo nunca permaneceu igual. Em alguns momentos, ele cresceu de uma forma quase impossível de explicar. Não porque eu tivesse encontrado mais disciplina ou mais tempo, mas porque encontrei pessoas que despertaram em mim uma vontade diferente de existir.

Acho que essa é uma das características menos comentadas do amor.

Ele não muda apenas aquilo que sentimos.

Ele muda aquilo que desejamos nos tornar.


Quando digo que o amor desperta a vontade de ser melhor, não estou falando de perfeição, nem daquela ideia cansativa de que precisamos mudar para sermos aceitos por alguém. Também não acredito que uma pessoa deva transformar completamente a própria identidade para permanecer em um relacionamento. Isso não é amor; é medo de perder.

O que tenho observado é outra coisa.

Os amores mais verdadeiros que conheci nunca me fizeram sentir insuficiente. Pelo contrário. Eles me fizeram olhar para a minha vida com mais cuidado. Passei a pensar melhor nas escolhas que fazia, nos hábitos que cultivava, na forma como tratava as pessoas e até na maneira como ocupava os meus dias. Era como se cada decisão, por menor que parecesse, deixasse de dizer respeito apenas ao presente e começasse a dialogar com a mulher que eu estava construindo.

Foi nesse momento que entendi que ser uma pessoa melhor não significa ser impecável.

Significa viver de maneira mais consciente.

É escolher cuidar da saúde porque desejo ter energia para viver tudo aquilo que sonho, e não apenas porque existe um padrão de beleza a ser alcançado. É estudar porque acredito que o conhecimento amplia a forma como enxergamos o mundo e nos torna mais preparados para contribuir com ele. É aprender a controlar uma resposta impulsiva porque as palavras também constroem a identidade de quem somos. É celebrar a conquista de um amigo sem permitir que a comparação ocupe o lugar da admiração.

Nada disso nasce da obrigação.

Nasce do amor.

Há uma diferença enorme entre alguém dizer que precisamos mudar e a simples presença dessa pessoa despertar, naturalmente, a vontade de crescer.

Essa diferença parece pequena, mas muda absolutamente tudo.


Penso muito nisso quando observo as amizades que escolhi cultivar ao longo da vida. Sempre ouvi que somos parecidos com as pessoas de quem nos aproximamos, mas acredito que existe uma camada ainda mais profunda nessa ideia. Nós também somos moldados por aquilo que admiramos.

Percebi, com o passar dos anos, que as amizades que permaneceram tinham algo em comum. Eram pessoas que despertavam em mim respeito antes mesmo de despertarem identificação. Admirava a forma como encaravam o trabalho, a curiosidade com que aprendiam coisas novas, o compromisso que tinham com os próprios sonhos e, principalmente, a maneira como tratavam quem estava ao redor.

Nunca permaneci perto dessas pessoas porque queria competir com elas.

Também nunca pensei que fossem “melhores” do que eu.

O que existia era uma inspiração silenciosa. Conviver com elas me fazia acreditar que eu também podia desenvolver aquelas qualidades, não para me tornar igual, mas para construir uma versão mais madura de mim mesma.

Hoje entendo que esse foi um dos maiores presentes que recebi das minhas amizades.

Elas nunca me pressionaram a mudar.

Elas apenas tornaram impossível permanecer exatamente no mesmo lugar.


Esse movimento também aparece, de formas diferentes, quando pensamos no amor romântico. Existe uma ideia muito comum de que encontramos alguém para completar aquilo que nos falta. Nunca consegui acreditar nisso. Relações saudáveis não nascem da falta; nascem do encontro entre duas pessoas que continuam crescendo enquanto caminham juntas.

Há alguns dias, conversando com um amigo, ele me contou que estava conhecendo uma garota por quem havia criado uma admiração muito bonita. No meio da conversa, comentou que ainda não se sentia pronto para viver aquele relacionamento.

Perguntei se ele acreditava que estar pronto não era, em alguma medida, uma decisão.

A resposta dele ficou comigo durante dias.

Ele disse que não esperava alcançar uma versão perfeita de si mesmo. O que desejava era continuar amadurecendo para oferecer àquela relação um homem mais consciente, mais responsável e emocionalmente mais preparado do que era naquele momento.

Quanto mais pensei nessa conversa, mais percebi que ela não falava apenas sobre namoro.

Falava sobre respeito.

Falava sobre entender que algumas pessoas despertam em nós uma vontade tão bonita de crescer que passamos a cuidar melhor da própria vida, não porque nos sentimos obrigados, mas porque aquele encontro ampliou a visão que temos sobre quem podemos nos tornar.

Foi então que comecei a perceber que esse sentimento não aparecia apenas nos relacionamentos ou nas amizades.

Ele sempre esteve presente, sobretudo, na minha relação com Deus.

Foi na fé que encontrei a expressão mais profunda dessa ideia.


Este não é um texto religioso, nem pretende convencer alguém a enxergar o mundo da mesma forma que eu. A fé faz parte da minha história e, por isso, seria impossível escrever sobre aquilo que me transforma sem mencionar Deus. O que quero compartilhar é uma experiência humana: a de perceber que alguns amores mudam a maneira como olhamos para nós mesmos.

Durante muito tempo, pensei que a espiritualidade estivesse ligada apenas ao cumprimento de regras. Com o passar dos anos, compreendi que a transformação acontece em outro lugar. Ela começa quando deixamos de perguntar apenas o que queremos da vida e passamos a perguntar quem estamos nos tornando enquanto a vivemos.

Essa mudança de perspectiva alterou a forma como enxergo as minhas escolhas.

Não tento estudar mais porque alguém espera isso de mim. Não procuro cuidar da minha saúde para atender a uma expectativa externa. Não tento desenvolver paciência apenas porque parece ser a atitude correta. Tudo isso passou a fazer sentido porque comecei a entender que cada pequena decisão participa da construção da mulher que desejo ser.

Percebi, então, que o amor e a autoestima caminham muito mais próximos do que costumamos imaginar.

Durante anos, ouvi que autoestima significava gostar de si mesmo. Hoje, acredito que ela também é uma forma de responsabilidade. Quando reconhecemos o valor da nossa própria vida, passamos a tratá-la com mais cuidado. Escolhemos melhor aquilo que consumimos, os ambientes que frequentamos, as conversas que alimentamos e até a maneira como atravessamos os dias, porque entendemos que tudo isso molda, aos poucos, quem seremos no futuro.

Talvez seja por isso que eu pense tantas vezes na mulher que ainda não sou.

Penso na mãe que espero me tornar um dia.

Na esposa que gostaria de ser.

Na amiga em quem as pessoas possam confiar mesmo nos dias difíceis.

Na profissional que quero construir ao longo dos anos.

Essas versões ainda não existem completamente, mas influenciam inúmeras escolhas que faço hoje.

Quando decido levantar para treinar mesmo sem vontade, não penso apenas no resultado imediato. Penso na saúde que desejo ter quando envelhecer, na disposição para acompanhar os meus filhos, na energia para viver uma vida longa ao lado das pessoas que amo. Quando escolho estudar em vez de permanecer na superficialidade, não estou pensando apenas no próximo trabalho ou na próxima oportunidade. Estou investindo na mulher que quero oferecer ao mundo.

A mesma lógica aparece nas pequenas atitudes que quase ninguém percebe.

Responder alguém com respeito quando a irritação parece mais fácil.

Reconhecer um erro antes que o orgulho fale mais alto.

Celebrar a conquista de um amigo sem transformar a comparação em amargura.

Continuar aprendendo quando seria mais confortável acreditar que já sabemos o suficiente.

Essas escolhas parecem pequenas quando vistas isoladamente, mas são elas que, repetidas ao longo dos anos, constroem uma vida.


Foi justamente observando esse movimento que encontrei um conceito da psicologia conhecido como Efeito Michelangelo, desenvolvido pelos pesquisadores Stephen Drigotas e Caryl Rusbult. A teoria propõe que relacionamentos saudáveis favorecem aquilo que chamam de “melhor versão do eu”. Em vez de moldar alguém segundo expectativas externas, pessoas que nos amam de forma genuína enxergam potenciais que, muitas vezes, ainda não conseguimos reconhecer sozinhos e, pela convivência, criam um ambiente em que esses potenciais podem florescer.

Gosto dessa ideia porque ela rompe com uma visão muito comum sobre o amor.

Costumamos dizer que alguém nos transformou.

Hoje, acredito que a transformação não acontece dessa maneira.

As pessoas certas não criam uma identidade nova dentro de nós. Elas despertam qualidades que já existiam em estado de possibilidade. A disciplina, a generosidade, a coragem, a curiosidade e a maturidade não surgem porque alguém as impôs. Elas aparecem porque um amor verdadeiro nos convence de que vale a pena cultivá-las.

Talvez seja essa a diferença entre um relacionamento construído sobre insegurança e outro construído sobre admiração.

No primeiro, tentamos mudar para sermos aceitos.

No segundo, crescemos porque encontramos razões para viver de forma mais consciente.


Quanto mais reflito sobre isso, mais percebo que todos os grandes amores da minha vida deixaram a mesma herança.

Meus pais me ensinaram, desde cedo, que o caráter é construído nas escolhas que ninguém aplaude. Meus amigos ampliaram a maneira como enxergo o mundo e me desafiaram, pelo exemplo, a nunca me acomodar. A minha fé me mostrou que a transformação mais profunda acontece de dentro para fora e que uma vida guiada por propósito sempre produz frutos que vão além de nós mesmos.

Nenhum desses amores exigiu perfeição.

Nenhum me fez sentir que eu precisava ser outra pessoa para ser aceita.

O que todos fizeram foi despertar uma vontade sincera de viver melhor.

Talvez seja justamente por isso que hoje eu tenha tanta dificuldade em separar amor de responsabilidade.

Não responsabilidade como peso, cobrança ou obrigação, mas como gratidão. Quando encontramos pessoas que nos amam de maneira genuína, nasce quase naturalmente o desejo de honrar esse encontro vivendo de forma mais íntegra, mais generosa e mais consciente.

No fim das contas, percebo que nunca quis me tornar uma pessoa melhor para provar alguma coisa a alguém.

Quis me tornar uma pessoa melhor porque os amores que encontrei me ensinaram que a vida pode ser vivida com mais profundidade.

E essa, para mim, é uma das maiores evidências de que estamos diante de um amor verdadeiro.

Ele não desperta medo.

Não nos faz acreditar que precisamos alcançar uma perfeição impossível.

Também não nos convence de que jamais seremos suficientes.

O amor genuíno faz algo muito mais bonito.

Ele amplia o nosso horizonte. Faz com que deixemos de viver apenas para satisfazer desejos imediatos e passemos a construir, todos os dias, a pessoa que desejamos oferecer ao mundo.

Porque, no fim, os maiores amores da nossa vida não nos pedem para sermos diferentes.

Eles apenas despertam em nós a coragem de cuidar melhor da pessoa que já somos e da pessoa que, um dia, esperamos nos tornar.

Para continuar refletindo

Livros:

  • Os Quatro Amores (C. S. Lewis).
  • Em Busca de Sentido (Viktor E. Frankl).
  • Hábitos Atômicos (James Clear).
  • A Coragem de Ser Imperfeito (Brené Brown).

Filmes:

  • Questão de Tempo.
  • Pequena Miss Sunshine.
  • As Vantagens de Ser Invisível.

Séries:

  • This Is Us.
  • Ted Lasso.
  • Modern Family.

Fontes

referências consultadas para este texto

  1. 01
    A coragem de ser imperfeito — Brené Brown
    Rio de Janeiro: Sextante, 2013.
    Livro
  2. 02
    Hábitos atômicos: um método fácil e comprovado de criar bons hábitos e se livrar dos maus — James Clear
    Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.
    Livro
  3. 03
    Close Partner as Sculptor of the Ideal Self: Behavioral Affirmation and the Michelangelo Phenomenon — Stephen M. Drigotas, Caryl E. Rusbult, Jennifer Wieselquist e Sarah Whitton
    Journal of Personality and Social Psychology, v. 77, n. 2, p. 293–323, 1999.
    Estudo
  4. 04
    Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração — Viktor E. Frankl
    52. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
    Livro
  5. 05
    Os quatro amores — C. S. Lewis
    São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2017.
    Livro
  6. 06
    Tornar-se pessoa — Carl R. Rogers
    São Paulo: Martins Fontes, 2009.
    Livro