If You’re So Scared of Getting Older

Sobre a melancolia de crescer, a saudade dos momentos enquanto ainda os vivemos e o luto silencioso de perceber que estamos deixando de ser quem um dia fomos.

“It feels so scary getting old.” — Lorde, Ribs

Sempre senti saudade dos momentos enquanto ainda os vivia.

Quando era criança, essa sensação aparecia de formas pequenas, quase imperceptíveis. Eu ficava triste no último dia de aula porque sabia que aquela turma nunca mais seria exatamente a mesma. Sentia uma nostalgia estranha quando as férias estavam terminando, mesmo antes de elas acabarem. Às vezes, durante uma viagem em família, eu olhava pela janela do carro e pensava, sem entender muito bem por quê, que um dia sentiria falta daquele instante.

Na época, eu não tinha palavras para explicar isso.

Hoje, aos vinte e dois anos, percebo que essa sensação nunca foi embora. Ela apenas cresceu comigo.

Ainda acontece de eu estar vivendo um momento feliz e, ao mesmo tempo, uma parte de mim já sentir saudade dele. Como se existisse uma consciência silenciosa de que tudo aquilo — as pessoas, os lugares, a rotina, a versão de mim que existe naquele instante — inevitavelmente pertencerá ao passado.

Durante muito tempo achei que isso fosse apenas uma característica da minha personalidade. Até perceber que essa experiência aparece repetidamente na literatura, na psicologia e na arte produzida por pessoas da minha geração. Talvez seja por isso que Ribs, lançada por Lorde quando ela tinha apenas dezesseis anos, continue emocionando tanta gente mais de uma década depois.

Quando ela canta “It feels so scary getting old”, não parece estar falando sobre rugas, idade ou envelhecimento. Parece estar descrevendo o instante em que entendemos que a vida continua avançando enquanto ainda estamos tentando compreendê-la.

Talvez esse seja um dos sentimentos mais silenciosos da juventude.

Não temos medo apenas de crescer.

Temos medo da velocidade com que tudo muda.


Existe uma ideia bastante difundida de que a nostalgia pertence ao passado. Mas, olhando para a minha própria vida, percebo que ela muitas vezes nasce no presente.

Sinto saudade enquanto as coisas ainda estão acontecendo.

Não porque queira impedir que terminem, mas porque, de alguma forma, reconheço que são passageiras.

Crescemos acreditando que amadurecer significa acumular experiências. Hoje penso diferente. Amadurecer também é aprender a conviver com pequenas despedidas.

Cada fase da vida nos entrega alguma coisa, mas cobra outra em troca.

Existe uma última brincadeira de infância que nunca percebemos que era a última. Existe um último almoço em família antes de cada um seguir um caminho diferente. Existe uma última conversa inocente antes de descobrirmos que nossos pais não têm todas as respostas, que nossos amigos também mudam e que nós mesmos deixaremos de reconhecer versões antigas de quem fomos.

As despedidas mais importantes raramente chegam acompanhadas de cerimônias.

Elas acontecem em dias comuns.

Só muito tempo depois percebemos que aquele instante aparentemente banal jamais voltaria a existir.

Talvez seja justamente isso que torne crescer tão melancólico.

Não é a passagem do tempo em si.

É perceber que a vida muda silenciosamente enquanto estamos ocupados demais vivendo para notar.


Essa percepção encontra respaldo na psicologia.

O pesquisador Jeffrey Jensen Arnett descreve os vinte e poucos anos como um período chamado Emerging Adulthood, uma fase intermediária em que deixamos de ser adolescentes sem ainda nos sentirmos completamente adultos. É uma etapa marcada por possibilidades quase infinitas, mas também por uma quantidade igualmente infinita de dúvidas.

Nunca tivemos tantas opções de carreira, de lugares para morar, de caminhos para seguir e de pessoas para conhecer. Paradoxalmente, essa abundância também produz ansiedade.

Porque toda escolha confirma uma direção, mas também encerra inúmeras outras.

Crescer talvez seja descobrir que não viveremos todas as vidas que imaginamos para nós.

E existe um pequeno luto escondido dentro dessa descoberta.


Ao mesmo tempo, a própria maneira como percebemos o tempo também se transforma.

O neurocientista David Eagleman, autor de The Brain: The Story of You, explica que nossa memória organiza a passagem dos anos a partir da quantidade de novidade que experimentamos. Quando somos crianças, quase tudo é novo. O cérebro registra muito mais informações, e é justamente por isso que aqueles anos parecem tão longos quando olhamos para trás.

Na vida adulta acontece o contrário.

As rotinas se repetem, os dias começam a se parecer e a memória cria menos marcos capazes de diferenciá-los. Não é que o tempo passe objetivamente mais depressa; é nossa percepção dele que muda.

Essa explicação se torna ainda mais interessante quando colocada ao lado da teoria do sociólogo Hartmut Rosa, que descreve a sociedade contemporânea como uma sociedade da aceleração. Produzimos mais, consumimos mais informação, respondemos mais rápido e acompanhamos um fluxo contínuo de novidades. Vivemos cercados pela sensação de que nunca estamos fazendo o suficiente e de que sempre existe alguma coisa acontecendo em outro lugar.

Talvez seja justamente o encontro entre essas duas ideias que explique por que tantos jovens carregam a impressão de que a vida está escapando pelos dedos.

Não porque estejam vivendo menos.

Mas porque raramente conseguem permanecer tempo suficiente dentro de um único momento para habitá-lo por inteiro.


É nesse ponto que a arte deixa de ser apenas entretenimento e passa a funcionar como uma forma de reconhecimento.

Filmes, músicas e livros muitas vezes conseguem nomear sentimentos antes mesmo que saibamos descrevê-los. Talvez seja por isso que tantas pessoas encontrem conforto em obras como Lady Bird. À primeira vista, o filme acompanha uma adolescente prestes a deixar a cidade onde cresceu. Mas, olhando com mais atenção, ele fala sobre algo muito mais universal: a estranha experiência de viver os últimos capítulos de uma fase da vida sem perceber que eles são os últimos.

Não existe uma cena específica em que a infância acaba.

Ela simplesmente vai ficando para trás.

E talvez essa seja a parte mais difícil de crescer.

As grandes mudanças raramente acontecem de forma dramática.

Na maior parte das vezes, elas chegam em dias absolutamente comuns. Um almoço em família que parecia igual aos outros. Uma conversa qualquer depois da aula. Um abraço antes de sair de casa. Uma tarde que não tinha nada de extraordinário e que, anos depois, passa a ocupar um lugar definitivo na memória.

A vida não anuncia suas despedidas.

Ela simplesmente continua.

Talvez seja por isso que tantas lembranças importantes pareçam tão pequenas quando acontecem. Só entendemos o peso de alguns instantes quando eles já deixaram de existir.

E talvez seja justamente aí que nasça a melancolia de crescer.


Existe um conceito muito presente na psicanálise de que o desenvolvimento humano também envolve perdas. Crescer não significa apenas conquistar autonomia, aprender coisas novas ou acumular experiências. Significa, sobretudo, elaborar despedidas.

Ao longo da vida, não perdemos apenas pessoas.

Também perdemos versões de nós mesmos.

A criança que acreditava que os pais sabiam tudo.

O adolescente que imaginava que a vida adulta traria respostas definitivas.

A pessoa que acreditava que existia apenas um caminho certo para seguir.

Nenhuma dessas versões desaparece de uma vez. Elas vão ficando para trás lentamente, enquanto outras ocupam seu lugar.

Talvez por isso seja tão difícil perceber quando uma fase termina.

Ninguém acorda, em um determinado dia, sabendo exatamente que aquela foi a última vez em que enxergou o mundo daquela maneira.

As transformações mais profundas quase sempre acontecem em silêncio.


Durante muito tempo achei que havia alguma coisa errada comigo por sentir saudade do presente.

Hoje penso exatamente o contrário.

Talvez essa sensação seja apenas uma consequência de prestar atenção na vida.

Porque só percebe a delicadeza de um instante quem reconhece que ele não poderá ser repetido da mesma forma.

Talvez seja justamente essa consciência que faça alguns momentos parecerem maiores do que realmente são.

Não porque sejam extraordinários.

Mas porque, enquanto acontecem, alguma parte de nós já compreende que eles são únicos.


Quanto mais envelheço, menos acredito que amadurecer seja encontrar respostas definitivas.

Acho que amadurecer tem mais a ver com desenvolver intimidade com a incerteza.

Continuamos sem saber exatamente quem seremos daqui a cinco anos.

Continuamos mudando de ideia.

Continuamos descobrindo coisas novas sobre nós mesmos.

Continuamos nos despedindo de pessoas, lugares e versões antigas da nossa identidade.

A diferença é que, aos poucos, aprendemos que a vida não espera que estejamos prontos para continuar acontecendo.

E talvez nem precise.


Hoje entendo que aquela saudade que sempre senti nunca falou apenas sobre o passado.

Ela também nunca foi medo do futuro.

Na verdade, ela sempre falou sobre a consciência de que tudo passa.

Talvez seja por isso que algumas músicas nos emocionem tanto, que certos filmes permaneçam conosco durante anos e que algumas lembranças pareçam maiores do que realmente foram. Não porque desejemos voltar no tempo, mas porque, por alguns instantes, alguém conseguiu traduzir uma experiência que parecia impossível de explicar.

No fim das contas, crescer nunca foi apenas acumular anos.

Foi descobrir que viver também significa deixar coisas para trás.

Não apenas lugares ou pessoas, mas versões inteiras de quem fomos.

Existe uma tristeza discreta nisso.

Mas existe também uma beleza.

Porque, se um dia sentimos saudade de quem fomos, é porque aquela pessoa existiu de verdade.

E, se hoje consigo sentir saudade de um momento antes mesmo que ele termine, talvez seja apenas porque finalmente entendi que a vida nunca nos pertence completamente.

Ela apenas passa por nós.

E amadurecer talvez não seja aprender a segurar o tempo.

Talvez seja aprender a permanecer presente enquanto ele passa.


Para continuar refletindo

Livros:

  • The Defining Decade (Meg Jay).
  • Demian (Hermann Hesse).
  • Stoner (John Williams).

Filmes:

  • Lady Bird.
  • Aftersun.
  • Frances Ha.

Músicas:

  • Ribs (Lorde).
  • Nothing New (Taylor Swift feat. Phoebe Bridgers).
  • Teenage Dream (Olivia Rodrigo).

Fontes

referências consultadas para este texto

  1. 01
    Ribs — Lorde
    Música (álbum Pure Heroine, 2013)
  2. 02
    Emerging Adulthood: The Winding Road from the Late Teens Through the Twenties — Jeffrey Jensen Arnett
    Livro (Oxford University Press)
  3. 03
    The Brain: The Story of You — David Eagleman
    Livro (Pantheon Books)
  4. 04
    Social Acceleration: A New Theory of Modernity — Hartmut Rosa
    Livro
  5. 05
    Lady Bird
    Filme
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