“Eu me lembro” é mais romântico do que “eu te amo”
Sobre como o amor mora naquilo que alguém escolhe lembrar.
Esses dias eu vi um vídeo do criador de conteúdo Preston Rack em que uma menina diz:
“I remember” is more romantic than “I love you”.
“Eu me lembro” é mais romântico do que “eu te amo”.
E a reação imediata de quem está entrevistando ela é simples:
Por quê?
Acho que foi exatamente essa pergunta que ficou comigo.
Porque, à primeira vista, a frase parece exagerada.
Como algo poderia ser mais romântico do que dizer “eu te amo”?
Mas quanto mais eu pensei sobre isso, mais percebi que talvez a frase não esteja falando sobre intensidade.
Talvez ela esteja falando sobre atenção.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Eu sempre fui uma pessoa muito observadora.
Desde criança, presto atenção nas pessoas.
Nas histórias que contam.
Nos medos que revelam sem perceber.
Nas frases que repetem.
Nos sonhos que mencionam numa conversa aleatória e depois nunca mais voltam a comentar.
E, ao longo da vida, comecei a perceber uma coisa sobre mim:
Eu me sinto amada quando percebo que alguém faz isso comigo também.
Não quando alguém me elogia.
Não quando alguém me idealiza.
Mas quando alguém me observa.
Porque existe uma diferença muito grande entre ser admirada e ser vista.
Acho que grande parte das pessoas passa a vida querendo ser amada.
Mas talvez exista um desejo ainda mais profundo do que esse.
O desejo de ser compreendida.
De ser percebida.
De existir de forma tão verdadeira para alguém que os detalhes também importem.
Porque amar alguém é relativamente fácil como conceito.
Nós amamos amigos.
Amamos parceiros.
Amamos familiares.
Mas observar alguém exige presença.
Exige tempo.
Exige interesse genuíno.
É por isso que eu acho que a frase “eu me lembro” carrega tanto peso.
Porque ela não fala apenas sobre memória.
Ela fala sobre tudo o que aconteceu antes da memória existir.
Escuta.
Curiosidade.
Atenção.
Presença.
Afinal, ninguém se lembra daquilo que nunca observou.
Talvez seja por isso que algumas das demonstrações de afeto mais marcantes da minha vida nunca vieram acompanhadas de grandes declarações.
Vieram de coisas muito menores.
De alguém lembrar de algo que eu havia contado meses antes.
De alguém perceber uma mudança no meu humor.
De alguém mencionar um sonho que eu tinha compartilhado numa conversa perdida entre centenas de outras.
São momentos pequenos.
Mas que carregam uma mensagem enorme.
A mensagem de que alguém estava realmente prestando atenção.
E eu acho que isso toca tanto a gente porque ser observado é uma forma de validação muito poderosa.
Num mundo em que quase todo mundo quer ser ouvido, existe algo extremamente raro em encontrar alguém disposto a ouvir de verdade.
Não apenas esperando a própria vez de falar.
Mas interessado.
Curioso.
Presente.
Quando isso acontece, a sensação não é apenas de afeto.
É de reconhecimento.
Como se alguém dissesse:
“Eu vejo você.”
E talvez seja isso que tantas pessoas estejam procurando quando buscam amor.
Também acho que isso explica por que alguns reencontros nos emocionam tanto.
Às vezes anos se passam.
A relação termina.
As rotinas mudam.
As pessoas seguem caminhos completamente diferentes.
E então, num encontro inesperado, alguém diz:
“Eu lembro que você queria morar fora.”
Ou:
“Eu lembro daquela fase em que você estava obcecada por esse assunto.”
Ou:
“Eu lembro que você tinha medo disso.”
E, de repente, algo se move dentro da gente.
Não necessariamente porque ainda existe amor.
Mas porque existe memória.
Porque alguém guardou uma versão nossa que talvez nem nós mesmos carreguemos mais.
Talvez seja por isso que a lembrança esteja tão próxima da nostalgia.
A memória tem uma capacidade curiosa de preservar pessoas.
Às vezes a relação acaba.
Às vezes a proximidade desaparece.
Mas certos detalhes permanecem.
E existe algo muito bonito na ideia de que uma parte nossa continua existindo dentro da história de alguém.
Não de forma grandiosa.
Mas através dos pequenos fragmentos que ficaram.
Talvez seja por isso que histórias como Normal People, de Sally Rooney, marquem tantas pessoas.
Marianne e Connell passam anos entrando e saindo da vida um do outro.
Mas continuam carregando lembranças, versões e fragmentos daquilo que o outro foi.
O que torna a relação deles tão impactante não é apenas o amor.
É o reconhecimento.
A sensação de que, independentemente do tempo ou da distância, existe alguém no mundo que realmente sabe quem você é.
E talvez seja isso que torne certas conexões tão difíceis de substituir.
Mas existe uma outra camada nessa conversa que me interessa ainda mais.
Porque lembrar não é apenas guardar informações.
É atribuir importância.
Todos nós conhecemos centenas de pessoas ao longo da vida.
Escutamos histórias todos os dias.
Participamos de conversas que desaparecem da memória quase imediatamente.
Então o que faz algumas coisas permanecerem?
Talvez seja o afeto.
Talvez a gente lembre porque aquilo importou.
Porque aquela pessoa importou.
Porque, de alguma forma, ela alterou a forma como enxergamos o mundo.
Quando alguém se lembra de você, não está apenas demonstrando boa memória.
Está mostrando que você ocupou espaço.
Por isso, talvez, que a frase “eu me lembro” carregue uma sensação tão forte de permanência.
Porque o amor nem sempre permanece.
As relações mudam.
As circunstâncias mudam.
As pessoas mudam.
Mas algumas lembranças continuam existindo muito depois do fim.
E existe algo profundamente humano na ideia de deixar marcas uns nos outros.
De seguir vivendo, de formas pequenas e silenciosas, dentro da memória de alguém.
Eu acho que a gente fala muito sobre amor através de grandes gestos.
Sobre declarações.
Sobre demonstrações grandiosas.
Sobre frases que parecem saídas de um filme.
Mas cada vez mais eu tenho a impressão de que o amor mora em lugares muito menores.
Na atenção.
Na escuta.
Na observação.
Na disposição de guardar pedaços de alguém sem que isso seja uma obrigação.
No fim, talvez a frase daquele vídeo tenha ficado comigo por um motivo simples.
Porque ela não fala apenas sobre lembrar.
Ela fala sobre enxergar.
E ser visto é uma das experiências mais significativas que existem.
Porque existem muitas pessoas capazes de dizer “eu te amo”.
Mas poucas capazes de dizer:
“Eu me lembro.”
E talvez seja justamente aí que o amor deixa de ser uma palavra e passa a ser presença.
Fontes →
referências consultadas para este texto
- 01 Normal People (2018) — Sally RooneyLivro
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