As coisas que amávamos continuam nos esperando

Talvez a cura não esteja em voltar ao passado, mas em reencontrar a parte de nós que permaneceu guardada nele.

“Algumas histórias permanecem conosco por mais tempo do que imaginamos. Não porque nunca as deixamos para trás, mas porque elas continuam guardando uma parte de quem fomos até o momento em que precisamos encontrá-la novamente.”

Sempre que atravesso um período difícil, percebo que faço exatamente o mesmo movimento.

Não procuro um livro recém-lançado. Também não sinto vontade de começar uma série inédita ou descobrir um filme que nunca assisti. Quase sempre, sem planejar, volto para aquilo que um dia ocupou um lugar importante na minha vida. Releio Quem é Você, Alasca?, abro novamente Mentirosos, revejo As Vantagens de Ser Invisível, retorno para How I Met Your Mother, The O.C. ou Stranger Things. Às vezes, não é nem uma história. É uma música, um restaurante, uma rua, um cheiro específico ou até um desenho que acompanhou toda a minha infância.

Durante muito tempo, achei que fazia isso apenas porque gostava dessas obras.

Hoje penso diferente.

Comecei a perceber que quase nunca volto a elas quando tudo está bem. Esse movimento costuma acontecer justamente quando me sinto perdida, quando alguma mudança desorganiza a forma como eu enxergava a vida ou quando preciso lidar com perdas que nem sempre consigo explicar. É como se, intuitivamente, eu procurasse algo que me lembrasse de quem eu era antes de determinadas dores.

Foi então que comecei a me perguntar se isso acontecia apenas comigo.

A resposta, descobri depois, era não.


Crescer costuma ser apresentado como uma sequência de conquistas. A primeira faculdade, o primeiro emprego, a independência financeira, a construção de uma carreira, um relacionamento, uma casa, uma família. Quase sempre falamos sobre aquilo que ganhamos com o passar dos anos.

Falamos muito menos sobre aquilo que inevitavelmente deixamos pelo caminho.

Existe um tipo de luto que raramente recebe esse nome.

Não é o luto provocado pela morte de alguém, nem pelo fim de um relacionamento. É um luto muito mais silencioso, quase invisível, que acompanha o amadurecimento de qualquer pessoa.

Ao crescer, não nos despedimos apenas de lugares ou de pessoas. Também nos despedimos de versões de nós mesmos.

Da criança que acreditava que os adultos tinham todas as respostas.

Da adolescente que imaginava um futuro completamente diferente daquele que acabou vivendo.

Dos sonhos que pareciam inevitáveis, mas nunca aconteceram.

Das amizades que pareciam eternas e, pouco a pouco, se transformaram apenas em lembranças.

Até mesmo das inseguranças que um dia pareciam enormes e hoje perderam completamente o sentido.

Nenhuma dessas despedidas acontece de uma vez.

Elas vão se acumulando ao longo da vida, quase sempre sem que percebamos.

Talvez seja justamente por isso que, em determinados momentos, sentimos vontade de revisitar aquilo que marcou fases anteriores da nossa história. Não porque desejamos viver novamente naquele tempo, mas porque tentamos compreender o caminho que percorremos até chegar aqui.


A psicologia tem dedicado atenção crescente a esse fenômeno nas últimas décadas. Durante muito tempo, a nostalgia foi interpretada apenas como uma saudade excessiva do passado, quase como um obstáculo para seguir em frente. Hoje, pesquisadores entendem que ela pode exercer uma função muito mais complexa.

Estudos desenvolvidos por Constantine Sedikides e Tim Wildschut mostram que a nostalgia pode fortalecer a autoestima, aumentar a sensação de pertencimento e ajudar as pessoas a manterem uma percepção contínua da própria identidade. Em vez de aprisionar alguém ao passado, recordar experiências significativas frequentemente ajuda a organizar emocionalmente o presente.

Essa mudança de perspectiva me chamou atenção porque ela desloca completamente a forma como costumamos olhar para esse sentimento.

Talvez não sintamos falta apenas de uma época.

Talvez sintamos falta da maneira como existíamos dentro dela.

Existe uma diferença importante entre essas duas experiências.

Quando alguém diz que sente saudade da infância, por exemplo, dificilmente está falando apenas dos brinquedos ou da escola. Muitas vezes, está falando da tranquilidade de acreditar que o mundo era mais simples, da presença constante da família, da ausência de determinadas responsabilidades ou da sensação de que o futuro ainda continha infinitas possibilidades.

A lembrança não preserva apenas acontecimentos.

Ela preserva estados emocionais.

É justamente por isso que um livro, uma música ou um filme podem despertar sensações tão intensas anos depois. Eles não armazenam apenas uma narrativa. Funcionam como pequenas cápsulas da nossa memória autobiográfica, capazes de reativar emoções, pensamentos e maneiras de perceber o mundo que pareciam esquecidas.


Esse processo também ajuda a explicar por que revisitamos determinadas histórias em vez de procurar novas.

Quando pego novamente um livro que li aos quinze anos, não encontro apenas as mesmas páginas. Encontro a menina que acreditava em determinadas certezas, que fazia planos diferentes para a própria vida e que ainda não conhecia muitas das experiências que viriam depois.

A história permanece praticamente igual.

Quem se transforma é o leitor.

Essa talvez seja uma das características mais bonitas da literatura, do cinema e da arte em geral. Grandes obras nunca permanecem exatamente as mesmas porque nós nunca permanecemos exatamente os mesmos.

Cada releitura é um novo encontro.

Não apenas com a obra.

Mas conosco.

O crítico literário Hans Robert Jauss defendia que nenhuma obra possui um significado fixo e definitivo. Cada geração — e cada leitor — a interpreta a partir das próprias experiências, expectativas e referências. Em outras palavras, um livro nunca é exatamente o mesmo quando voltamos a ele anos depois, porque quem faz a leitura já não é a mesma pessoa.

Talvez seja por isso que alguns personagens parecem crescer junto conosco.

Eles continuam dizendo as mesmas palavras.

Somos nós que passamos a entendê-las de outra forma.


Existe um desenho que sempre me faz pensar nisso.

Peanuts, criado por Charles M. Schulz, acompanha a minha vida desde a infância. Durante muitos anos, eu enxergava Charlie Brown apenas como um menino tímido que nunca conseguia empinar uma pipa ou acertar uma bola de beisebol.

Hoje, vejo outra história.

Percebo alguém que continua tentando, mesmo depois de inúmeras frustrações.

Alguém que conhece o fracasso, mas não deixa de acreditar que amanhã pode ser diferente.

Lucy continua impaciente.

Linus continua procurando segurança em seu cobertor.

Snoopy continua transformando a imaginação em refúgio.

Nada disso mudou.

Quem mudou fui eu.

Talvez seja justamente por isso que Charlie Brown continue sendo tão atual décadas depois de sua criação. As histórias nunca dependeram de grandes acontecimentos para emocionar. Elas sempre falaram sobre aquilo que permanece igual em qualquer geração: insegurança, amizade, esperança, pertencimento e a tentativa constante de encontrar sentido nas pequenas experiências do cotidiano.

Quando era criança, eu ria das situações.

Hoje, percebo as camadas que existiam nelas desde o começo.

Talvez elas sempre estivessem ali.

Eu apenas ainda não tinha vivido o suficiente para enxergá-las.

Há um conceito da psicologia que ajuda a compreender esse movimento de uma forma especialmente bonita: continuidade da identidade (self-continuity). Em termos simples, trata-se da capacidade de perceber que, apesar das mudanças inevitáveis da vida, ainda existe um fio que conecta quem fomos à pessoa que somos hoje.

Essa percepção parece simples, mas nem sempre é fácil de manter.

Ao longo dos anos, mudamos de cidade, de escola, de faculdade, de trabalho. Algumas amizades permanecem; outras terminam sem grandes explicações. Descobrimos que nem todos os sonhos da adolescência eram possíveis e, ao mesmo tempo, encontramos outros que jamais imaginaríamos ter. Perdemos pessoas, criamos novas rotinas, mudamos de opinião, amadurecemos.

Em determinado momento, é natural olhar para trás e sentir que existe uma distância enorme entre quem éramos e quem nos tornamos.

Talvez seja justamente nesses momentos que sentimos vontade de voltar.

Não necessariamente porque desejamos viver outra vez aquela fase da vida, mas porque queremos confirmar que ela continua fazendo parte da nossa história.

É como visitar a casa onde crescemos. Sabemos que os móveis mudaram, que as paredes receberam outra pintura e que muita coisa já não está mais ali. Ainda assim, basta atravessar a porta para perceber que existe algo que permanece. Não é a casa em si. É a lembrança da pessoa que um dia a habitou.

Com as histórias acontece algo parecido.

Elas não conservam apenas personagens ou enredos. Guardam versões nossas.


A psicologia também oferece outra explicação interessante para esse fenômeno através dos estudos sobre memória autobiográfica. Diferentemente de uma lembrança isolada, ela organiza experiências, emoções e acontecimentos que ajudam a construir a narrativa da nossa própria vida.

Quando ouvimos uma música marcante ou abrimos um livro que fez parte da adolescência, raramente recuperamos apenas o conteúdo daquela obra. Muitas vezes voltam também o quarto onde a lemos, as pessoas que estavam ao nosso lado, os medos que pareciam enormes naquela época, os sonhos que ainda pareciam possíveis e até sensações físicas que acreditávamos ter esquecido.

A memória não arquiva apenas fatos.

Ela arquiva contextos.

Talvez por isso um cheiro seja capaz de nos transportar para um momento específico da infância ou uma única cena de um filme desperte emoções que permaneciam adormecidas havia anos.

Não estamos apenas lembrando.

Estamos reorganizando a nossa própria narrativa.

O psicólogo Dan McAdams, conhecido por seus estudos sobre identidade narrativa, defende que construímos quem somos por meio das histórias que contamos sobre nós mesmos. Nossa identidade não é formada apenas por acontecimentos objetivos, mas pela maneira como interpretamos esses acontecimentos ao longo da vida.

Essa ideia muda completamente a forma de enxergar as obras que permanecem conosco.

Talvez elas não sejam apenas lembranças.

Talvez também sejam capítulos da história que contamos sobre quem somos.


Existe ainda uma diferença importante entre sentir saudade do passado e desejar voltar a ele.

Nem toda lembrança representa uma vontade de reviver aquilo que aconteceu.

Às vezes, o que buscamos não é repetir uma fase da vida, mas recuperar uma característica que parecia existir nela.

A leveza.

A curiosidade.

A capacidade de se encantar.

A esperança.

Quando penso nos livros que releio ou nas séries que revejo, percebo que nunca estou tentando reconstruir exatamente aquele momento da minha adolescência. Eu sei que isso seria impossível. A pessoa que escreveu este texto não é a mesma que, anos atrás, se emocionou pela primeira vez com Quem é Você, Alasca? ou passou tardes inteiras assistindo a The O.C..

Mas talvez exista algo daquela menina que continua necessário.

Não porque ela soubesse mais sobre a vida.

Na verdade, ela sabia muito menos.

O que ela possuía era uma forma de olhar para o mundo que ainda não havia sido atravessada por tantas despedidas, responsabilidades e frustrações.

Voltar para essas histórias, às vezes, significa apenas lembrar que essa maneira de existir ainda pode ter espaço dentro da vida adulta.


Isso também me faz pensar na forma como costumamos entender o amadurecimento.

Existe uma ideia muito difundida de que crescer significa abandonar aquilo que parecia infantil. Como se reler um livro da adolescência fosse um sinal de que nos recusamos a seguir em frente ou como se assistir novamente a um desenho da infância fosse apenas um exercício de nostalgia.

Nunca enxerguei dessa maneira.

Na verdade, acredito que amadurecer talvez seja justamente o contrário.

É aprender a integrar todas as versões que já existiram dentro de nós.

A criança curiosa.

A adolescente que sonhava acordada.

A jovem que começou a descobrir que a vida também exige renúncias.

O adulto que continua tentando compreender o próprio caminho.

Nenhuma dessas pessoas desapareceu completamente.

Elas continuam convivendo dentro da mesma história.

Donald Winnicott, ao escrever sobre o desenvolvimento emocional, defendia a importância de preservar aquilo que chamava de self verdadeiro: a parte mais espontânea, criativa e autêntica da personalidade. Embora sua teoria não trate especificamente da nostalgia, ela ajuda a compreender por que certas experiências do passado continuam exercendo um papel tão importante ao longo da vida. Em muitos momentos, voltar a elas pode representar uma tentativa de reencontrar aspectos genuínos de nós mesmos que acabaram sendo encobertos pelas exigências da vida adulta.

Talvez seja exatamente isso que algumas histórias fazem.

Elas nos lembram de quem somos quando deixamos de tentar corresponder às expectativas de todo mundo.


Há algum tempo li uma frase que dizia que “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”. A ideia é conhecida desde Heráclito: tanto o rio quanto a pessoa já mudaram quando esse reencontro acontece.

Talvez seja assim com os livros, os filmes e as músicas que marcaram nossa vida.

Nunca voltamos para eles da mesma maneira.

Cada retorno é um diálogo entre quem fomos e quem somos agora.

Às vezes percebemos detalhes que nunca haviam chamado nossa atenção. Em outras ocasiões, uma cena que antes parecia inesquecível já não provoca o mesmo impacto. Há também momentos em que uma única frase, antes ignorada, passa a resumir exatamente aquilo que estamos vivendo.

A obra permaneceu praticamente igual.

Foi o nosso olhar que amadureceu.

E talvez seja justamente essa a maior prova de que crescemos.


Hoje penso que as coisas que amávamos continuam nos esperando porque nunca deixaram de fazer parte da nossa história.

Não ficaram congeladas no passado.

Continuaram crescendo conosco, silenciosamente.

Esperaram até o momento em que estivéssemos prontos para encontrá-las de novo, agora com outras perguntas, outras cicatrizes e uma compreensão diferente da vida.

Talvez seja por isso que algumas pessoas guardem livros antigos mesmo depois de anos sem abri-los. Ou mantenham uma música específica na playlist, mesmo sem ouvi-la com frequência. Ou retornem, vez ou outra, ao mesmo filme, ao mesmo restaurante, à mesma rua ou ao mesmo desenho.

Não se trata apenas de revisitar uma lembrança.

É uma forma de reconhecer que nossa história não começou ontem.

Cada fase da vida deixou algo importante. Cada versão de quem fomos ainda sustenta um pedaço da pessoa que somos hoje.

No fim, talvez a cura nunca tenha estado em voltar ao passado.

Ela esteja em compreender que nenhuma das nossas versões ficou para trás.

Todas continuam caminhando conosco.

E talvez seja exatamente por isso que as coisas que amávamos nunca vão embora.

Elas permanecem onde sempre estiveram, esperando o dia em que precisaremos delas não para fugir da realidade, mas para lembrar, com delicadeza, quem fomos, quem continuamos sendo e tudo o que ainda podemos nos tornar.


Para continuar refletindo

Livros:

  • The Future of Nostalgia (Svetlana Boym).
  • Playing and Reality (Donald W. Winnicott).
  • The Stories We Live By (Dan P. McAdams).
  • The Routledge Handbook of Nostalgia (Constantine Sedikides & Tim Wildschut).

Filmes:

  • As Vantagens de Ser Invisível.
  • Aftersun.
  • Perfect Days.

Séries:

  • How I Met Your Mother.
  • The O.C.
  • Stranger Things.

Quadrinhos:

  • Peanuts / Charlie Brown (Charles M. Schulz).

Nota da autora

Este ensaio reúne reflexões autorais e dialoga com estudos da psicologia, da filosofia e da teoria literária sobre memória, identidade, nostalgia e desenvolvimento humano. As referências utilizadas não pretendem oferecer respostas definitivas, mas ampliar uma pergunta que me acompanha há muito tempo: por que, justamente quando a vida nos transforma, sentimos vontade de voltar às histórias que um dia nos ajudaram a descobrir quem éramos?

Fontes

referências consultadas para este texto

  1. 01
    The Future of Nostalgia — Svetlana Boym
    Basic Books, 2001
  2. 02
    Toward an Aesthetic of Reception — Hans Robert Jauss
    University of Minnesota Press, 1982
  3. 03
    The Stories We Live By — Dan P. McAdams
    Guilford Press, 1993
  4. 04
    The Routledge Handbook of Nostalgia — Constantine Sedikides & Tim Wildschut
    Routledge, 2024
  5. 05
    Playing and Reality — Donald W. Winnicott
    Tavistock Publications, 1971
  6. 06
    Peanuts — Charles M. Schulz
    Tiras publicadas entre 1950–2000
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