A gramática emocional do amor precoce

Sobre como a palavra “amor” muda de significado quando duas pessoas não falam o mesmo idioma emocional.

Uma vez um cara com quem eu estava me relacionando no primeiro mês de quase relacionamento me disse que me amava.

E eu pensei: “que?????”

Foi mais um travamento mesmo, como se a palavra tivesse chegado antes da hora e não encontrasse lugar onde se encaixar naquilo que a gente estava vivendo.

Eu lembro que fiquei em silêncio, tentando entender se eu tinha perdido alguma etapa da história, porque na minha cabeça aquilo ainda não fazia parte do que estava sendo construído.

E eu respondi pra ele: “Como assim?”

Aí ele me respondeu:

“Você tem uma visão sobre amor muito limitada. Quando eu digo que te amo, não estou te dizendo que você é o amor da minha vida ou que quero namorar ou casar com você.

Quando digo que te amo, estou dizendo que te amo pela pessoa que você é, pela forma como você pensa, pela forma como você me trata, pelo seu jeito. Eu te amo por você ser quem você é e por quem você é comigo.”

Durante muito tempo eu achei que a parte mais interessante dessa história era o fato de alguém ter dito “eu te amo” tão cedo.

Hoje eu acho que a parte mais interessante foi a resposta.

Mais especificamente a frase: “você tem uma visão limitada sobre amor”.

Porque ela ficou ecoando muito depois da conversa acabar.

Não porque eu concordei imediatamente com ela. Na verdade, minha primeira reação foi pensar justamente o contrário. Mas, quanto mais o tempo passava, mais eu percebia que aquela frase estava me obrigando a encarar uma pergunta que eu nunca tinha feito de verdade:

Existe uma forma certa de amar?

A gente cresce aprendendo muitas coisas sobre amor sem perceber que está aprendendo.

Aprendemos através dos filmes, dos livros, das músicas, das histórias dos nossos pais, dos nossos amigos e até das decepções que acumulamos pelo caminho. Aos poucos, vamos construindo uma espécie de roteiro interno sobre como essa experiência deveria acontecer.

Primeiro você conhece alguém.

Depois você se interessa.

Depois você se apaixona.

Depois, eventualmente, ama.

E embora ninguém tenha oficialmente escrito essas regras, a maioria de nós parece agir como se elas existissem.

Existe uma curiosidade quase engraçada na forma como tratamos os sentimentos. Ninguém recebe um cronograma emocional ao nascer e, ainda assim, carregamos a sensação de que determinadas palavras só podem ser pronunciadas depois de um certo período de tempo, como se a validade de um afeto pudesse ser medida pelo calendário.

Gostar rápido demais assusta.

Sentir demais assusta.

Dizer “eu te amo” cedo demais assusta ainda mais.

Mas por quê?

O que exatamente estamos tentando proteger?

Talvez porque, para muita gente, a palavra amor tenha sido associada exclusivamente à sua forma mais definitiva: o amor que dura décadas, o amor que vira casamento, o amor que sobrevive ao tempo e se transforma em projeto de vida. Mas será que essa é a única forma de amor que existe?

Foi aí que aquela conversa começou a ganhar outro significado para mim.

Porque, olhando para trás, não acho que ele estivesse falando sobre futuro.

Ele estava falando sobre reconhecimento.

Sobre encontrar alguém e admirar profundamente a forma como essa pessoa pensa, enxerga o mundo, trata os outros, ocupa espaço numa conversa, reage à vida.

E se isso não é amor, então o que é?

Talvez uma das dificuldades da nossa geração seja a necessidade constante de transformar sentimentos em definições. A gente quer saber o que significa, para onde vai, em que estágio está, qual nome recebe.

Existe quase uma obsessão por categorizar experiências antes mesmo de vivê-las.

É justamente por isso que sempre volto a pensar em Before Sunrise.

O filme acompanha apenas uma noite na vida de duas pessoas que acabaram de se conhecer. Não existem grandes acontecimentos, reviravoltas dramáticas ou declarações épicas. O que existe é conversa. Presença. Curiosidade genuína.

E talvez o que torne o filme tão bonito seja justamente a recusa em explicar tudo.

Jesse e Céline não passam horas tentando definir aquilo que estão sentindo. Eles apenas permitem que a experiência exista.

Existe algo profundamente raro nisso.

Talvez porque vivamos numa época em que tudo precisa virar conclusão.

Mas algumas experiências são mais interessantes quando permanecem perguntas.

O filósofo Roland Barthes escreveu, em Fragmentos de um Discurso Amoroso, que cada pessoa constrói sua própria linguagem para o amor. Talvez seja por isso que tantas relações pareçam, às vezes, conversas atravessadas por traduções imperfeitas.

Não porque alguém esteja mentindo.

Não porque alguém esteja amando menos.

Mas porque duas pessoas podem usar exatamente a mesma palavra enquanto falam de experiências completamente diferentes.

E talvez tenha sido isso que aconteceu naquela conversa.

Enquanto eu enxergava o amor como uma construção que precisava de tempo para ser nomeada, ele o enxergava como algo que também podia nascer da admiração, da presença e do reconhecimento.

Nenhum dos dois estava necessariamente errado.

Só estávamos olhando para a mesma palavra através de janelas diferentes.

Hoje, olhando para trás, não acho que aquela conversa me ensinou o que é amor.

Mas ela me fez perceber quantas regras eu tinha criado para ele sem nunca questioná-las.

Quem decidiu que amor precisa esperar?

Quem definiu o momento exato em que um sentimento ganha autorização para ser dito?

E por que tratamos algumas formas de amor como mais legítimas do que outras?

Talvez algumas pessoas amem devagar.

Talvez outras amem rápido.

Talvez algumas precisem de anos para dizer “eu te amo”.

Talvez outras sintam necessidade de dizer isso no instante em que percebem.

E talvez o ponto não esteja no tempo.

Talvez o ponto esteja na honestidade.

Porque a gente fala muito sobre o risco de dizer “eu te amo” cedo demais.

Mas fala pouco sobre o risco de passar a vida inteira esperando o momento perfeito para dizer aquilo que já é verdade.

E talvez amar também seja isso: aceitar que uma única palavra pode carregar significados diferentes sem que nenhum deles seja necessariamente menor.

Talvez amar seja, justamente, reconhecer que algumas das experiências mais importantes da vida não cabem em definições rígidas.

E que nem tudo o que é verdadeiro precisa esperar para existir.

Fontes

referências consultadas para este texto

  1. 01
    Before Sunrise (1995) — Dirigido por Richard Linklater
    Filme
  2. 02
    Fragmentos de um Discurso Amoroso — Roland Barthes
    Livro
  3. 03
    All About Love — Bell Hooks
    Livro
  4. 04
    Normal People — Sally Rooney
    Livro
  5. 05
    The Course of Love — Alain de Botton
    Livro
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